Blogoterapia

É um blog sobre psicoterapia, filosofia, arte e o sentido da vida para passar um conteúdo dinâmico e diário, para troca de conteúdos que possa ser terapêutico.

O acaso vai nos proteger

O acaso vai nos proteger

(O nosso epitáfio)

Os clientes se preocupam com as coisas das quais nos arrependemos nos últimos momentos da vida e então busquei informações de pessoas que trabalharam com pacientes em seus últimos dias e horas e eles se arrependem de (5) cinco coisas que coincidem aparentemente com o conteúdo da poesia de Jorge Luís Borges que inspirou o Epitáfio dos Titãs.

Conversei muitas vezes com pacientes enfermeiros e médicos que trabalharam muitos anos com pessoas enfermas, pessoas que às vezes internadas e decidiram deixar o hospital para embora morrer em casa e os chamados “profissionais das ultimas horas” descreveram coisas muito interessantes.

Eram pessoas sensíveis que trabalharam com os “cuidados paliativos” com pacientes terminais, aqueles que em geral decidiram deixar os que, quando desenganados e a medicina não tinha nada mais a oferecer, e o seus últimos desejos era apenas morrer em casa perto dos seus familiares. Alguns momentos incríveis foram partilhados enquanto estiveram juntos em suas últimas semanas ou em suas ultimas horas de vida. Perceberam que parece que as pessoas amadurecem muito repentinamente enquanto estão diante do fim da sua existência e quando a morte é algo eminente.

Um deles disse “eu aprendi a nunca subestimar a capacidade das pessoas para crescerem mesmo nesses últimos momentos.” Algumas mudanças parecem fenomenais. Cada um deles experimenta emoções muito significativas como era de se esperar, a negação, o medo, a tristeza, o remorso, a culpa e finalmente chegam à aceitação.

Cada paciente encontra a sua paz antes de partir (e relatam isto) e cada um faz isto do seu próprio jeito quase sempre muito serenamente.

Quando perguntados sobre os seus arrependimentos ou sobre as coisas que teriam feito de forma diferente em suas vidas, os temas mais comuns que surgiram são os cinco que aqui estão cuidadosamente descritos para você:

1 – Eu gostaria de ter sido mais fiel a mim mesmo, viver a minha vida e não a vida que esperavam de mim:

Este foi uma das queixas mais comum entre todos eles. Quando as pessoas se dão conta de que sua vida está terminando, elas olham para trás com muita clareza e parece que fica mais fácil ver quantos sonhos ficaram sem ser realizados.

A maioria deles não tinha realizado sequer a metade dos seus sonhos e estavam morrendo sabendo que isto acontecera devido às escolhas que eles fizeram ou não fizeram e que poderiam ter feito.

É muito importante respeitar os nossos sonhos ao longo das nossas vidas porque é com eles que nos identificamos e eles fazem com que sejamos aquilo que somos. A partir do momento que se perde a saúde já é tarde demais. A saúde leva embora a nossa liberdade sem que a gente se dê conta, e somente percebemos isto quando já não a temos mais o que fazer e quando as esperanças já se acabaram.

2 – Eu não deveria ter trabalhado tanto:

Isto saiu de cada um dos pacientes de sexo masculino que os nossos enfermeiros e médicos cuidaram em vários lugares do mundo. Eles perderam a infância dos seus filhos e a companhia de seus cônjuges. Filhos e cônjuges ficaram abandonados e eles, paradoxalmente trabalharam tanto para cuidar deles.

As mulheres também falaram deste terrível pesar. Porém, como a maioria era de gerações anteriores, muitos pacientes de sexo feminino não conseguiram sequer sustentar adequadamente as suas famílias apesar do excesso de dedicação. Todos os homens neste estado lamentaram profundamente terem gasto tanto tempo das suas vidas, envolvidos com o trabalho.

3 – Eu gostaria de ter tido coragem para expressar mais exatamente os meus sentimentos:

Muitas pessoas suprimiram seus sentimentos para manter uma falsa paz na relação com os demais e evitar conflitos. Como resultado, eles se conformaram a uma existência medíocre e não chegaram a ser o que teriam sido capazes de ser. Falharam na sua autenticidade. Muitas enfermidades se desenvolverem em consequência das suas amarguras e dos ressentimentos carregados ao longo da vida.

Não podemos controlar as reações dos demais. De fato ninguém consegue agradar ninguém e nem estamos no mundo para isto. De qualquer forma, ainda que as pessoas possam se chatear quando falamos honestamente as nossas verdades, no final o que se pleiteia é uma relação transparente e saudável e com isto todos ganham.

4 – Eu gostaria de ter tido mais contato com os meus amigos:

frequentemente não nos damos conta do valor e dos benefícios que trazem os nossos velhos e verdadeiros amigos, até quando temos uma semana de convalescência e nem sempre nos fora possível localizá-los. Muitos deles estavam tão envolvidos com suas próprias vidas, que deixaram com que amizades de ouro se perdessem com o passar dos anos. Em que pese os lamentos profundos sobre não terem dado às amizades o tempo e o esforço que mereciam, todos acabam perdendo amigos pelo caminho e lamentam isto quando estão morrendo.

É comum qualquer pessoa ocupada demais, deixar que as amizades desapareçam. Porém quando você se enfrenta com a morte, as preocupações da vida desaparecem e a gente quer ter os assuntos financeiros em ordem tanto quanto possível. Porem não é o dinheiro ou o status que tem uma verdadeira importância para eles, que desejam pôr as coisas em ordem, inclusive em benefício daqueles que amam e que ficam.

Em geral, eles já estão demasiadamente enfermos e cansados para cuidar dessas tarefas. Por fim, tudo que sobra se reduz ao amor e às relações. Isto é tudo o que resta nos nossos últimos dias das nossas vidas; o nosso amor e os nossos relacionamentos.

5- Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz:

Esta é uma das coisas mais surpreendentemente comuns. É o arrependimento por não ter viajado mais… Vivido mais… Tomado mais sorvete e andado mais descalços na areia da praia… Muitos não se deram conta até o fim, de que a felicidade é também uma escolha. Ficaram presos a padrões e hábitos antigos e perderam o velho e seguro “conforto” familiar e a proteção emocional que vinha dela.

A insegurança e o medo das mudanças lhes fizeram viver fingindo para todos e para o seu próprio “eu”, deixando os seus mais sentimentos reais contidos e agora comovidos chegavam a rir ou a chorar da estupidez que levaram as suas vidas.

Por tudo isto, quando vejo a pessoa que eu amo sair com suas amigas para um happy hour uma vez por mês eu fico orgulhoso e feliz, e então me lembro do epitáfio escrito originalmente por Jorge Luís Borges e que veio a inspirar a música dos titãs que à elas eu agora dedico:

 

Epitáfio (Titãs)

Devia ter amado mais /Ter chorado mais /Ter visto o sol nascer

Devia ter arriscado mais /E até errado mais / Ter feito o que eu queria fazer

Queria ter aceitado/As pessoas como elas são /Cada um sabe a alegria /E a dor que traz no coração

O acaso vai me proteger/Enquanto eu andar distraído/O acaso vai me proteger/ Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos /Trabalhado menos /Ter visto o sol se pôr

Devia ter me importado menos /Com problemas pequenos/ Ter morrido de amor

Queria ter aceitado/ A vida como ela é/ A cada um cabe alegrias/ E a tristeza que vier

O acaso vai me proteger /Enquanto eu andar distraído

O acaso vai me proteger /Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos /Trabalhado menos /Ter visto o sol se pôr

 

Pensem nisto!

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José Carlos Vitor Gomes Psic.

José Carlos Vitor Gomes Psic.

Atua como psicoterapeuta, psicoterapeuta familiar e de casal desde 1979. Fez cursos de especialização nos Estados Unidos, Argentina, Colômbia, Itália e no Brasil. Foi um dos pioneiros na divulgação da psicoterapia familiar no Brasil. Foi organizador de 53 eventos com celebridades nesta área com a participação de mais de vinte mil profissionais brasileiros.

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