Site do Psicólogo

Por que fazer psicoterapia?

Desde 1980 aprendendo a ajudar pessoas eu percebi algumas coisas interessantes, a primeira delas é que o objetivo das psicoterapias não é curar, muito embora às vezes, as curas nos surpreendam durante as terapias. Porém, quando elas ocorrem, é muito mais por mérito do paciente do que por uma façanha do profissional, porquanto, é da “crença, do empenho, do mérito e da fé do paciente que acontecem as alquimias e a cura.”

E o que é cura? Muitas vezes a gente adoece para se curar!

Não nos esqueçamos que, às vezes, os pacientes, por culpas e autopunições, não se acham dignos merecedores de suas curas, em outras palavras, às vezes, precisamos ajudá-los a abraçarem as suas dores, e fazendo as pazes com as confusões, algo inexplicável acontece. A questão é que muitas vezes nós, os terapeutas, não somos humildes o bastante, nos apresentamos como “reis da cura”, mágicos e de forma quase que ridícula, nos auto elogiamos e floreamos com adjetivos as nossas páginas e folhas de serviços.

– “Curo você em 15 minutos”. Não tem nada mais prepotente e mais ridículo, se nem Jesus tinha tal postura! Em quase todas as oportunidades milagrosas ele deixava tudo claro dizendo: – “Agora vai, e lembre-se; foi a sua fé que te curou!”

A segunda coisa mais estudada por centros terapêuticos nos últimos anos é que, quanto mais nos apresentamos como azes, das terapias, mais os pacientes se acomodam porque adotam a consciência equivocada de que vão curados “por nós”, e neste momento passamos por idiotas, porque seremos desafiados pelos pacientes acomodados que passam a testar as nossas habilidades, em especialmente os alcoólatras e os psicopatas.

Em terceiro lugar a experiência nos pede que sejamos humildes e minimalistas, para que mostremos um certo pessimismo estratégico, para que de alguma forma sejamos realistas e declaremos inclusive estrategicamente aa nossas impotências, talvez dizendo, “não sei se consigo, se conseguirmos alguma melhora será mérito seu e não por habilidades minhas”. Assim talvez diriam mestre como Milton Erickson, Claudio Naranjo, Gastón Soublette, Salvador Minuchin, Jeffrey Zeig ou Virginia Satir aos seus pacientes mais difíceis:

– “Vamos ver se você é bom mesmo!”

E ao conseguirem algum resultado elogiariam seus pacientes e se excluiriam estrategicamente seus méritos no processo terapêutico.

O objetivo de uma psicoterapia libertadora é acompanhar, dar os ombros e as mãos, construir a independência do paciente, pois ele não nos terá para sempre, e muito especialmente, ouvir e fazer considerações positivas.

Uma quarta razão são os motivos espirituais, coisas que nem todos enxergam, e sabermos que existem aqueles que não podem, não devem, não querem e nem conseguem se curar.  Suas doenças podem ser espirituais ou noéticas, aquelas que fluem do nosso inconsciente noético ou espiritual, entendidos em sentido grego como dos dizia Viktor Frankl.

Mas o sofrimento pode também advir de uma quinta razão que são as culpas do passado, quando estes, por alguma razão estão no mundo somente para passarem pelo que passam. Eles não querem e nem precisam se curar de coisa alguma. Mais do que isto, se auto sabotam, sabotam as suas terapias, boicotam o nosso trabalho e quando estão a ponto de conseguirem uma certa melhora, eles nos desqualificam e aniquilam o nosso eventual poder de placebo, então eles abandonam as suas terapias e vão embora às vezes reclamando porque os ajudamos.

Na verdade, existem os terapeutas mal treinados e incompetentes, os caça níqueis, mas se estamos dizendo que o que cura não são necessariamente os profissionais e as suas técnicas, mas a fé do paciente, o nosso saber não deveria ser importante.

Eles se recusam à melhorar, não se acham merecedores de sua paz, estão no mundo para passar pelo que passam e sem sequer acreditar nisto, não suportam a melhora, rejeitam a realização e a felicidade, não têm um mínimo de perseverança em quaisquer coisas que lhes possam trazer alguma realização, a sensação de estar bem e de ser feliz.

Por outro lado, não é por acaso que Freud e tantos outros disseram que a psicoterapia é a cura pelo amor. E curar por amor ou “com” o amor, não é absolutamente uma novidade e nem um privilégio reservado somente às psicoterapias – e creio que esta seja a sexta razão – porque as boas amizades e as boas relações afetivas são terapêuticas por si mesmas.  Psicoterapia não é tudo. Tive a honra de conhecer o excelente professor e terapeuta junguiano James Hillman, que, no ano do centenário da criação das psicoterapias, escreveu um livro chamado: “Cem anos de psicoterapia, e o mundo cada vez pior”.

Sabemos que não é responsabilidade apenas das psicoterapias e dos psicoterapeutas a modificação do mundo, assim como não é nossa missão a cura e a transformação das pessoas e nem o alívio da loucura planetária, porque esta imensa responsabilidade é de cada um de nós.

Já evoluímos, saímos da infância psicológica e agora sabemos que o mundo não vai melhorar, e que o mal-estar da civilização é combustível das nossas almas.

Se infelizmente é o nosso sofrimento que nos melhoram, precisamos de todas as dores que criamos. A maioria delas são invenções nossas. A sétima razão é que as dores do mundo nem sempre foram criadas pelo mundo, elas são criadas por nós, tanto é assim que a busca direta pelo prazer e a felicidade não são os caminhos que nos conduzem a eles.

Então nos perguntamos: qual é o sentido da terapia? Qual é função de um terapeuta? E a resposta é simples. As pessoas fazem terapia para continuarem sofrendo com sentido, porque a vida nem sempre melhora com as terapias. Quase todos continuarão sofrendo, com sentimento de culpa e se debatendo com a angústia diante da morte, cujos mistérios não serão resolvidos por terapias e terapeuta por serem contingências da vida humana.

Viktor Frankl e Jean-Paul Sartre foram precisos na opinião de que “O mundo pode nos causar problemas, mas não importa o que o mundo faz conosco, o que importa é o que a gente faz com as coisas que o mundo faz conosco”.

A psicoterapia quer apenas ouvir, acompanhar, ajudar na compreensão do sentido e das dores inevitáveis, na compreensão do sentido restaurador dos nossos males, e quando é assim, a psicoterapia terá se tornado uma Logoterapia, uma psicoterapia centrada no sentido e na pessoa, e por um milagre qualquer, é bem provável que fazendo as pazes com a dor ela desaparecerá.

José Carlos Vitor Gomes, Psic.
(19) 99191-5685

 

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.