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Blog › 24/06/2019

O sentido da perda

Ao Tadeu Fernandes de Carvalho, meu querido primo in memória

Perdemos o nosso amigo, o nosso irmão, o primo querido. Aquele entre os quais, durante muitos e muitos anos eu insistia para que nos víssemos mais, para que tomássemos mais café juntos, fizéssemos mais churrascos, mas que jogássemos mais conversas fora, e uma “conversa a mais jogada fora agora”, seria o nosso maior patrimônio.

Ah meu Deus! E agora estas conversar não existirão mais. Teremos que conviver com a saudade e com esta “falta”, a falta que nos fazem os Tadeus, a Anas e as Berenices, as Alessandras, os Carlos, os nossos filhos e todos os nossos irmãos e amigos.

Mas o tempo que passa como o vento, é o mesmo tempo que nos rouba todos os tempos, e ainda existem as desculpas, os desentendimentos, os afazeres, e tudo o que justifica as nossas fugas, os todos os nossos distanciamentos…

O Tadeu foi uma destas pessoas que a vida nos deu presente para ajudar a nossa passagem por aqui para colocar leveza nos nossos dias. Foi uma destas pessoas que passam pelo mundo somente para fazer o bem… e foi nele em quem primeiro pensei quando planejava fazer uma homenagem ao Tio João, a quem eu ainda devo tanto!

Devo a minha casa, que ele teve a grandeza de viabilizar ao me orientar para comprar um terreno, e nele traçamos os desenhos de uma pequena casa. Devo a ele o seu exemplo de paz. Devo as boas memórias, devo as lembranças dos dias em que ele chegava em minha casa com um pouco de arroz, que seria “tudo” para a semana.

Uma vez tomávamos chá; eu, ele e a minha mãe que estava grávida, e ele disse: “Nós também estamos grávidos” e disse que a Tia Maria esperava a futura Alessandra.

Agradeço a Deus a existência do meu tio e dos meus primos, que talvez tenham vindo para esta cidade grande para, entre outras coisas, nos socorrer naqueles dias difíceis. O Tio João não era materialmente rico! Ele era simplesmente “milionário” por dentro, e do seu lado, vivia a princesa que o céu lhe deu e que por acaso também se chamava Maria.

Eu amo cada um dos meus primos e me é raro e difícil confessar isto.

Mas trata-se de um amor que não anseia por nada em troca, pois a existência em si mesma, já tem feito todas as trocas e nos deu todos os presentes possíveis, e este amor em nenhum momento foi destes amores pueris e terrenos, mas foi o amor das mais elevadas alturas, destes amores das almas que se perdem e depois se encontram, e que parece incluir caprichosamente a distância para aumentar consequentemente a saudade…

Há pouco tempo um falava com a Cristiane, uma prima de Minas, e “Minas” tem a ver com as fontes, com tudo aquilo que jorra e que a gente nem sempre colhe. Não colhemos talvez devido a uma certa timidez que herdamos sabe-se lá de onde! Estamos longe da proximidade que merecemos, diferentes das famílias que se reúnem de década em década, ainda que seja apenas para falar das coisas não vividas.

Façamos uma linda festa, com bolos e fogos, com tudo o que for possível para que possamos talvez dar risadas ou chorarmos ainda mais, para que os nossos encontros em torno de alguém que acabou de partir, como, por exemplo o Tadeu, possa ser um momento para remediar saudades, para lembrarmos histórias e chorarmos despedidas.

Ainda esses dias, quase escrevi para a Cristiane, uma das nossas primas mais queridas, coisas que por fim não disse por falta de mais intimidade, queria dizer que o último presente sagrado de alguém que parte, é o de nos convocar e de nos reunir forçadamente em torno de si, para pensarmos nas coisas que perdemos mais além das inevitáveis partidas.

O Tadeu nos prestou um último favor; ele nos reuniu em sua volta, para nos mostrar que a convivência, a conversa e as comemorações são essenciais. A vida precisa ser celebrada e vivida enquanto há tempo, enquanto ainda estamos neste plano, para que não corramos o risco de termos que conter a nossa euforia em situações tristes, e de rirmos na presença dos que já não podem participar da tão sonhada alegria porque não existem mais.

José Carlos Vitor Gomes

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