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Biografia de Salvador Minuchin

(1921 – 2017)

­- Criador da terapia familiar estrutural –

“Crescer é aprender a se separar”.
-Salvador Minuchin-

Salvador Minuchin desenvolveu o modelo estrutural na terapia familiar para entender melhor a influência dos elementos externos e internos que frequentemente condicionam a família, que é a origem e a fonte geradora da sociedade humana.

Salvador Minuchin nasceu em 13 de outubro de 1921 em San Salvador de Jujuy, uma cidade na província de Entre Rios na Argentina. Salvador Minuchin foi, portanto, um expoente, um psiquiatra e pediatra de origem judaiaco-argentina que é lembrado pelo seu carisma e pela sua entrega como profissional.

As contribuições que ele nos deixou por meio de todos os seus trabalhos são imensas, e nos permitiram compreender melhor as dinâmicas e os desafios cotidianos do grupo familiar.

O conheci melhor em 1993 em Mar del Plata, Argentina, por ocasião de um congresso, onde eu e cerca de trinta profissionais brasileiros, a maioria deles de PUCSP, estivemos para vê-lo, após já tê-lo visto falar nas conferências “The evolution of Psychotherapy”, organizadas pelo meu mestre e mentor Jeffrey K. Zeig, Ph.D. da The Milton Erickson Foundation Inc., em geral com mais de dez mil participantes. Meu objetivo era convidá-lo para cursos no Brasil, onde, até então, ele nunca tinha estado para antes compromissos profissionais.

Cabe informar que, durante a década de noventa tomei como como missão contribuir para inovação da psicologia no Brasil que até então se fixara na Psicanálise e no comportamentalismo e entre 1991 a 1999 eu organizei 53 workshops e congressos e trouxe algumas das maiores celebridades do mundo para polinizar e fazer evoluir a psicologia no Brasil, figuras como: Jeffrey Zeig, Salvador Minuchin, Peggy Papp, Bradford Keeney, Humberto Maturana, Paul Watzlawick, Jay Haley, Cloé Madanes, Carlos Sluzki, Ernest Rossi, Stephen Gilligan, Zerka Moreno, Violet Oaklander, Hain Omer, Stephen Lankton, Michael Mahoney, Gianfranco Cecchin, Elizabeth Lukas, Viktor Frankl, Luigi Boscolo, Steve DeShazer, Richard Fish, Lynn Hoffman, John Grinder, Joseph Lopicollo e muitos outros, que nunca tinham vindo ao Brasil antes.

Cinco de Outubro de 1995, em São Paulo foi um dia chuvoso. No horizonte o céu sobre a pista do aeroporto de Cumbica e um avião da United Airlines se aproxima, e logo depois as pessoas saíam. Ao fundo no corredor se aproxima o velho amigo e professor Minuchin, M.D. um dos maiores psicoterapeutas familiares do mundo, alguém que a esta altura também já o conhecia de Palo Alto, Boston e Anaheim e das conferencias da Fundação Erickson.

– Como vai amigo?

– Bem, caro professor! Está cansado? Fez boa viagem? Perguntei-lhe.

– Claro que sim! É um prazer estar aqui. Obrigado! Respondeu.

Acomodei as suas malas no carro e saímos em direção à Santos Aonde aconteceria um workshop para mais de trezentas pessoas e de São Paulo à Santos no começo da noite daquela quinta-feira chuvosa tomariam mais três horas ao lado do extraordinário mestre que de vez em quando ria e dizia frases de sabedoria. No íntimo eu pensava no quanto a vida me fora generosa com presentes assim.

Disse-me que a oportunidade de novas relações faz com que as pessoas sejam menos tolerantes com os seus parceiros, naturalmente que se referindo a Zigmunt Bauman, Jay Haley e Humberto Maturana, e Dalai Lama (seus amigos pessoais), falando sobre a efêmera volatilidade das relações líquidas e voláteis.

De 1995 em diante, Salvador e Patrícia foram grandes amigos.

No dia seguinte após o café da manhã no Hotel Mendes Plaza, saímos para caminhar na praia antes do workshop que começaria às nove da manhã, e Minuchin, que preferiu andar descalço, comentou que há quase cinquenta caminhara por ali em plena lua de mel com a sua esposa Patricia Pittluck com quem se casou em 1951.

Convivi com Minuchin por muito tempo e fizemos cursos juntos, fora do Brasil. Ele retornaria ao Brasil outras vezes, mas especialmente para a The Brazilian Conference que eu organizei para ele 1997 no Hotel Nacional da Varig em Brasília com todos os demais professores mencionados velho folder abaixo e que contou com a presença de 1200 participantes.

Minuchin me ensinou que a nossa sociedade aprendeu a ganhar com tudo o que acontece e com tudo o que realizamos desde o seu nascimento até a morte, nas mínimas coisas. Ela ganha com os nossos acertos e erros e, é claro que isto mudou a minha e meus paradigmas, e houve um tempo que eu cheguei a pensar que, para a sociedade humana, não importa o que você faça, ela sempre encontra um jeito de utilizar tudo o que acontece conosco.

Nem preciso dizer o quanto isto me ajudou a compreender melhor a “técnica da utilização” de Milton Erickson e a “intenção paradoxal” de Viktor Frankl, a ponto de me estimular a preparar meu livro chamado “Tudo acontece para o bem – Sobre a inexistência do mal”. Na verdade, parece que já não existe mais o bem e o mal e nem o ouro é melhor que o lixo, porque, ao final, se bem utilizado, tudo acaba se tornando ouro nas alquimias da vida.

Minuchin, que para alunos como eu mais se parecia um sábio sufi, nos deixou em 30 de outubro de 2017, aos 96 anos de idade em Boca Raton, na Flórida nos Estados Unidos, vítima de uma parada cardíaca, cuja notícia nos foi dada por seu filho Daniel Minuchin e foi repercutida com pesares para todo o mundo, inclusive pelo prestigiado jornal The New York Times.

São muitos os que, com razão, colocam seu nome ao lado de figuras tão relevantes quanto Sigmund Freud, Carl Rogers, Viktor Frankl e Burrhus Frederic Skinner.

Ele foi pioneiro como terapeuta e inovava na hora incluir as crianças durante a relação de ajuda, no ato de coloca-la como dona de sua família e a família no seu contexto. Sem a família, ele dizia, “é impossível compreender a origem de determinados sintomas” e todos os seus elementos, inclusive empregados e animais, eram empoderados e considerados essenciais.

Ele fala de aspectos interessantes, como as alianças entre membros de uma família e nos ensinou como as relações de poder se desenvolvem e como a submissão e a libertação flui nesse cenário.

Além disso, foi um psiquiatra com habilidades excepcionais para permitir, entre outras coisas, a valorização do componente emocional na família. Deste modo, ele podia explicar, trabalhar melhor as tensões, traumas, danos e necessidades não atendidas de um modo quase que lúdico.

Sua clínica atendia mais de quatrocentos clientes por dia, incluindo pacientes individuais, casais, famílias e alunos.

Como disseram certa feita, Sal Minuchin era como um arquiteto reconstruindo estruturas familiares. Ele sabia como entrar e sair na dinâmica familiar para conseguir perceber as dinâmicas que alimentavam os processos patológicos, às vezes simplesmente se sentando do lado de um paciente mais enfraquecido, outras vezes apenas mudando de cadeira e de lugar e via como eles reagiam.

Mais tarde, por meio de intervenções com um direcionamento bem mais preciso, conseguia facilitar as mudanças que deviam ser feitas, colocando as crianças sempre na posição de destaque, os tratando como valiosos interlocutores.

Salvador Minuchin nasceu, portanto, na Argentina em 1921. Estudou medicina na Universidade de Córdoba e se formou em 1948. Mais tarde, passou alguns anos trabalhando em Israel, como médico do exército e conhecia a estrutura dos Kibutz como ninguém e após essa experiência, decidiu se estabelecer em Nova York para aprofundar os seus estudos sobre psiquiatria.

Em Nova Iorque se especializou também em psicanálise no Instituto William Alanson White, o que permitiu que ele trabalhasse muito bem como psiquiatra infantil em uma instituição de recuperação de crianças chamada Wiltwyck.

Foi durante esse período tão decisivo, compreendido entre 1954 e 1962, que Minuchin decidiu mudar um pouco o seu enfoque terapêutico até então clássico, da seguinte maneira:

  • Desenvolveu um tipo de terapia para crianças que incluía a família e seu colocou o foco de atenção no sistema.
  • Passou a permitir que as sessões fossem observadas por outros psiquiatras usando salas de espelho (one way Mirror).
  • Assim, todos os profissionais podiam aprender uns com os outros e melhorarem suas técnicas.

Através de dinâmicas tão inovadoras, Salvador Minuchin acabou desenvolvendo uma “psicoterapia familiar estrutural”.

Após formular suas novas teorias para a psicoterapia familiar, Minuchin viajou para Palo Alto, na Califórnia, onde trabalhou com Jay Haley e Paul Watzlawick perfazendo uma clínica de orientação familiar estrutural e sistêmica, com estes célebres terapeutas que foram alguns dos fundadores da psicoterapia familiar breve, e com estes mentores ele aperfeiçoou e amadureceu ainda mais sua inovadora teoria.

Do seu encontro com Jay Haley e do trabalho dos dois surgiu o livro Families of the Slums (1967), onde descreve pela primeira vez a sua “teoria da terapia familiar” baseada num modelo estrutural, e logo mais tarde, surgiu o seu projeto mais relevante, que foi a clínica de orientação infantil na Filadélfia, fundada e dirigida por ele por mais de 10 anos.

Em 1981 ele deixou seu posto como diretor desta clínica para criar o “Instituto dos Estudos da Família”, onde passa a ensinar terapeutas familiares ou não, a empoderarem e a melhorarem as crianças e a otimizar os processos de educação.

As contribuições teóricas de Minuchin

Seu trabalho na instituição de recuperação de crianças Wiltwyck foi essencial quando Minuchin passou a desenvolver seu modelo teórico. Foi aí que ele se deu conta, por exemplo, de que não adiantaria muito focar o trabalho exclusivamente nos jovens, pois estes, uma vez reabilitados e tendo alta, voltariam a fazer as mesmas coisas tinham que retornar para as instituições.

Suas maiores contribuições teóricas e técnicas para a terapia familiar são, em primeiro lugar a percepção de que não adiantaria focar a atenção única e exclusivamente no PI – Paciente Identificado. Devemos antes levar em consideração o contexto, e o contexto onde o PI está inserido é a sua família.

Ao incluí-lo no contexto familiar, é possível compreender melhor a teia invisível e cheia de significantes que determina a vida da criança e os sintomas, os comportamentos patológicos que tendem a ser manifestar frequentemente nas dinâmicas familiares.

O objetivo da terapia de Salvador Minuchin

 A missão da terapia familiar estrutural de Sal Minuchin é compreender as interações presentes no sistema familiar concreto para transformá-lo, e a percepção em si mesma já é transformadora. Para isso, ele buscava melhorar os comportamentos e relações dos integrantes da família, tendo a criança ou o adolescente frequentemente como protagonistas.

A família como “entidade dinâmica”, é em si mesma a sua dinâmica, é o sentido de identidade da pessoa e um dos postulados que sustenta o seu modelo teórico é a constatação de que “a família é uma unidade, ou uma entidade dinâmica” que se move e que está constantemente em mutação ou em transformação, portanto, a família que você atende hoje não será a mesma que você atenderá amanhã.

Assim sendo, o terapeuta não deve se concentrar apenas na interação do grupo, mas também compreender as mudanças, explorar o passado e entender os processos que criam a tensão atual e o cenário presente aqui-agora.

Nesse sentido, entende-se que a família dá um sentido de identidade para cada um dos seus membros.

Entende-se então que tais interações, jogos de força, conluios, coerções, jogos de poder para dominação e submissão, etc., faz com que cada pessoa adote uma posição dentro única e insubstituível no sistema familiar e que pode mudar com o tempo feito um caleidoscópio familiar

Além do mais, aparece aqui um outro fenômeno: o desejo de separação e de individualização, que é inerente a qualquer adolescente, que a necessidade de crescer e aprender para ir embora e se separar, sem, contudo, perder a sua família.

O diagnóstico da estrutura familiar

Na hora de fechar o diagnóstico da estrutura familiar de uma criança ou de um adolescente, o terapeuta deve focar a sua atenção nos seguintes aspectos:

No sistema e nos subsistemas.

Nos limites.

No ciclo vital e evolutivo da família.

Nas alianças, nos vínculos e coalizões familiares.

Deve observar não apenas a hierarquia, mas ordem familiar.

Focar na flexibilidade para as mudanças,

E quais são as fontes de acolhimento e de estresse.

Finalmente, Minuchin foi um lendário psiquiatra e pediatra argentino-judeu que nos deixou imensos legados. Livros tão importantes como: A cura da famíliaO caleidoscópio familiar e Técnicas de terapia familiar etc.

Alguns outros escritos em coautoria com celebridades tão celebres quanto ele, além de centenas de artigos e entrevistas, alguns dos quais estão nos arquivos da The Milton Erickson Foundation, Inc.

Seu imenso trabalho é um legado que continua sendo apreciado por acadêmicos, especialistas no atendimento à criança e ao adolescente, terapeutas familiares e todos os que se interessam em melhorar a vida da criança e do ambiente familiar.

Sabemos por fim que, atendendo famílias, estamos construindo um futuro mais digno para a pessoa humana e uma sociedade mais saudável e feliz, e que Salvador Minuchin, M.D. foi um dos melhores, maiores e dos mais humildes expoentes.

José Carlos Vitor Gomes, Psic.

Psicoterapeuta Online

Desde 1980 aprendendo a ajudar pessoas

(19) 99191-5685

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