Você não é uma pessoa

- José Carlos Vitor Gomes -

Eu estou aqui para lhe informar que você não é gente. Portanto, você não existe. Você é uma memória que se acostumou com a ideia de que você existe e que é o corpo onde você mora e que lá é o seu endereço.

Você se apegou à ideia defasada, errada, torpe e ultrapassada de que você já foi alguém, mas aquilo que você era, simplesmente morreu. Mais do que isto, se você pensa que você é uma pessoa, então você precisará decidir que pessoa é esta, pois a criança que você foi já morreu, o adolescente que você foi já não existe mais e o adulto que você acha que é, tem sido inconstante e vive nascendo e morrendo a cada instante.

Você é uma nova pessoa a cada dia que passa.

Aprende novas coisas, se esquece de outras e assim vai deixando de ser o que você era, e para lhe fazer justiça, você é apenas e tão somente o seu agora. Tudo aquilo com o que você se identificou foi-se embora. Aquilo que você pensa que é, morreu, e não tem mais nada a ver com você e com a sua história atual de vida.

Tudo aquilo que somos são os nossos pensamentos sobre nós, e as crenças que um dia teremos que esquecer.

Então, você não existe. Não é um corpo material. Você vai se tornando algo e ao mesmo tempo se desconstruindo e deixando de ser aquilo em que se tornou. Mas então surge uma outra pergunta: Se você não é uma pessoa, então o quem você é?

Deixe-me apresentá-lo para si mesmo! Eu sei que isto parece um tanto arrogante, mas você é um “ser” que tem se tornado cada vez mais aquilo que você não é. Você é a sua essência! Quando você se lembra do seu nome, das suas realizações, de como aprendeu a dançar, a fazer amor e andar de bicicleta, que depois ficou sem dançar, sem amar e sem andar de bicicleta por mais de 10 anos e ao tentar de novo, conseguiu.

Então o que restou de você foram as suas experiências, as suas memórias, e você foi aprendendo novas coisas e arquivando, não no corpo, mas em sua alma e foi se tornando cada vez mais a sua consciência das coisas.

Você é uma cesta de lembranças, as suas memórias de si mesmo, algo que aos poucos tentei descrever no livro “O caçador de si mesmo”, mas francamente, tenho certeza que não o esgotei. Eu não dei conta de entendê-lo porque nem eu mesmo me compreendo. Você é o único ser que transita por aí em diferentes seres e pessoas, que nasce e que morre a cada momento do seu “agora”.

Você é aquele que chega e que parte e vai passando a vida através dos corpos e de si mesmo. Você não vê com os seus olhos, mas através deles. E sabe? Você é um “ser” e o ser não é exatamente uma coisa, mas é a consciência que você tem de si mesmo. Sensações, imagens, pensamentos e sentimentos, coisas que nunca existiram no espaço e no tempo, que são transcendentais, intocáveis e que nos escapam, e por isto tenho dito que, mais do que um ser material vivendo experiências espirituais, você é um ser espiritual vivendo experiências materiais e através delas.

Na verdade, você é uma alucinação sobre aquilo que você é.

Você se imagina e acredita no que imagina. Você não é uma pessoa, e é bem por isto que tens se buscado tão desesperadamente, simplesmente por precisar de ser algo material em que poderias se apegar, e talvez por isto a morte o tenha assustado tanto!

Você é livre porque não está preso às formas, nem ao espaço e o tempo. Isto lhe torna um espírito livre para ser e viver, para morrer e renascer. Você é um pacote de imaginações sobre si mesmo e que às vezes acredita mais do que deveria em seus próprios pensamentos.

O que você vive se torna a imagem daquilo que você é ou pensa que é. O seu corpo, o seu Universo e o seu cérebro se relacionam para criar aquilo que você acha que é, e também eu viajo nesta mesma nave, me engano com as mesmas coisas com as quais você se engana, embora eu, como pretenso pensador teria menores razões para me equivocar.

Assim, você vai vivendo como um dançarino do espaço e flui como as almas que surgem aqui e acolá, em lugar algum ou em todos os lugares, em todos os tempos, além do tempo ou em nenhum tempo.

Vivemos a bilhões de anos no palco do DNA, e ele brincava de nos levar e nos trazer de volta de tempo em tempo, nos diferentes corpos dos nossos descendentes. Fomos milhões de pessoas e apenas “um ser” que viveu através delas, através de imagens e das soberbas narrativas sobre nós mesmos.

A sua vida é um sonho, e assim sendo, é claro que precisarias estar desperto o bastante para saber que você, como todos nós, está simplesmente adormecido, e precisas dormir para ter a coragem de andar por aí através dos caminhos, dos seus pés e da sua história.

Não nos assustamos conosco porque somos os nossos próprios fantasmas, e precisaríamos acordar o suficiente para saber que estamos sonhando, mas o que importa é a certeza de que não somos “uma” pessoa, que eu não sou uma pessoa e que ninguém é pessoa alguma e estamos todos em construção.

Se eu fosse uma pessoa, eu ficaria confuso, pois a criança que fui já partiu e todo o passado que tive cessou de existir.

Porque somos todos seres divinos que se reciclam, e isto é bom, até porque assim deixaremos de ver os outros como pessoas prontas e com identidade fixa. Somos uma vaga expressão divina, deuses condenados a serem deuses, e sendo assim, não teremos outra saída senão a salvação, porque não restará mais nada de nós, e nem teremos chance alguma a não ser nos salvarmos, em primeiro lugar de nós mesmos e das nossas convicções sobre nós.

Para concluir, parece impossível evitar sermos aquilo que nem imaginávamos ser; os nossos inventores de nós mesmos e o nosso próprio Deus.

José Carlos Vitor Gomes, Psic.
(19) 99191-5685

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