Ter razão para ser infeliz

O problema do mundo atual é que existem muitas pessoas inteligentes cheias de dúvidas e muita gente idiota cheias de certezas. Vivemos a era das incertezas, da relatividade e da imprecisão e esta frase de Charles Bukowski, poeta e pensador, se refere a uma doença altamente contagiosa que é causa de muitas das angústias e insegurança, cujo vírus nos desequilibra e torna as pessoas altamente agressivas e impacientes.

Inspirado em Gustl Rosenkranz, Nietzsche e Luciano Pires abordo a questão do choque das dissonâncias, quando aquilo esperamos não existe ou não ocorre, quando me decepciono, quando não realizo os meus sonhos, e, sobretudo, quando não consigo tolerar a desrazão e a falta de lógica me trai. Pior ainda é a consciência de que o colapso da razão, é um outro nome para isto que temos chamado loucura.

Existe, todavia, uma espécie de vírus pandêmico para a razão que se espalha pelo mundo, e para esta razão que a própria razão desconhece. É a razonite aguda, que tem se expandido por todas as províncias, por todos os continentes de uma forma assustadora e que atinge todos os níveis da consciência humana, uma pandemia que afeta cada dia do dia a dia das pessoas, e que vai colocando em risco a paz, instalando a confusão torre-babilônica, devastando o bem-estar e a felicidade de toda a humanidade.

A razonite é a peste da razão, uma doença contagiosa que inflama e contamina o pensamento, a sabedoria, a sensibilidade e o cérebro humano, além de atacar a vida emocional e destruir o espírito, tornando as pessoas exatas demais, como se fossem máquinas, sem coração, insensíveis e intolerantes.

A palavra “insensível” tem a ver com falta de “sentido”, ou de “bom senso”, que tem a ver também com a falta de humor, que é a alma e o coração de todos os relacionamentos. Humor tem a ver com humos que em Latim é a umidade que tem o poder de unir os grãos para fazer a massa e gerar o pão.

A maior parte das pessoas, na vida cotidiana, na vida profissional e acadêmica querem ter sempre a razão, como se ela fosse a garantia de que somos normais e de que não somos loucos, mas poucos sabem que o exagero da lógica e da razão em si mesma é a face oculta da loucura, a outra face da desrazão, a ponto de Owen Williams, um psicólogo canadense, perguntar aos seus clientes; “afinal o que você deseja, você quer ter razão ou prefere ser feliz?”

Aqueles que foram tomados pelo surto da razão ou pela razonite, costumam ser pouco sociáveis, frios, hostis, com tendência à insultar outras pessoas, à praticar do bullying, dos abusos e assédios de toda natureza e em todos os níveis.

Em patamares mais avançados o transtorno da razão, pode levar à perda do senso de realidade. A perda da capacidade de se comunicar, a limitação da empatia que leva facilmente ao isolamento, deixando as pessoas confusas e perdidas, por vezes, com uma certa tendência à carência, às doenças físicas e emocionais.

A razonite é perigosa também porque se alastra e contamina cada vez mais as pessoas e as coloca numa situação em que todos julgam ter razão sobre ela e acham que sua verdade é menor. Os doentes se prendem aos seus pontos de vistas e atacam uns aos outros, convencidos de que são donos da verdade, e assim, entre eles o diálogo fica impossível e a paz rapidamente se acaba.

Fica assim decretado o fim da harmonia na família, entre os casais e nas amizades, pois a peste da razonite é uma enfermidade que atinge aqueles que ocupam lugares importantes na sociedade, na ciência, entre os políticos, os jornalistas e os professores, todos aqueles que atingiram o poder para influenciar pessoas.

Com a finalidade de ajudar para que estejam atentos, deixo alguns sintomas da razonite, para que percebam o mais rapidamente possível aqueles que estão possuídos por esse mal, para que não percam tempo tentando convencê-los de nada e de coisa alguma, para que possam se escapar o quanto antes do seu venenoso poder para influenciar e despersonalizar pessoas:

  • Os portadores da razonite têm um extremo narcisismo.
  • Padecem da mais total falta de empatia.
  • Querem sempre ter razão em tudo.
  • São agressivos, intolerantes e justificam tais comportamentos.
  • Perdem a capacidade de humor e de admirar as cores do arco-íris, são daltônicos, enxergam tudo em preto e branco e adoram os tons de cinza.
  • São arrogantes, têm problemas de comunicação, dificuldades em aceitar argumentos e repetem sempre as mesmas coisas como se fossem discos arranhados.
  • Têm uma surdez seletiva para os argumentos alheios para que ninguém ouse contraditá-los.
  • Em geral perderam o senso de realidade e fugiram para a bolha artificial das suas crenças arbitrariamente criadas ou de uma realidade inventada.
  • São teimosos, exaltados e um tanto messiânicos. Acham que os que não concordam com eles, estão contra eles com uma tendência à paranoia e a perseguição.

A razonite infecciosa começa em casa com a família, que muitas vezes já está com a enfermidade encubada, depois afeta às crianças que se tornam exageradamente crentes – quase fanáticas - e por todos os lugares por onde andam, estão quase sempre com seus desodorantes literários, seus manuais, alcorões, bíblias e pacotes de crenças debaixo do braço.

Mais tarde esta infecção atinge à comunidade e a sociedade extensa, destruindo amizades, congregando os que defendem os mesmos padrões de verdades, abraçando seitas ou igrejas, assumindo grupos ideológicos, destes aos quais Nietzsche, por exemplo, chamava de grupos de “Verdadizações arbitrárias de mentiras”, de cujas prisões jamais se livrariam e então a razonite se espalharia rapidamente por todo o planeta.

Às vezes as pessoas, trazem em si mesmas uma certa predisposição para a razonite. Entram nas redes sociais ou em clubes, buscando tudo o que possa justificar e dar legitimidade às suas crenças. Elas fazem as suas iniciações com pessoas infectadas, passando a pensar e agir como se fossem “condores blancos” destes que implantam as suas razões nos mais ingênuos, não medindo esforços para que seus discípulos, iludidos, sintam-se donos de uma porção mágica de “verdades” exclusivas.

Porém, um dos problemas da razonite é que ela não surge do nada e nem sozinha. As pessoas que se contaminam com este mal, em geral a encubavam infecções em seus corpos, mentes e almas, eram por exemplo “vaidosos”, e por causa do excesso de vaidade eram tomadas por egocentrismos difíceis de serem tratados.

Finalmente, a cura da razonite é complicada porque demora até que todos percebam a gravidade do problema, e, às vezes, passam a vida sem perceberem o transtorno. A cura de pessoas próximas nem sempre serve como alerta. Os sintomas são ignorados por não serem vistos como defeitos, mas como qualidade, e ao invés de serem combatidos, são regados como árvores de frutos de ouro.

Uma solução para o tratamento da razonite aguda seriam as psicoterapias, que ajudam os pacientes a reconhecer que sofrem de uma enfermidade grave, entendam o quanto foram infectados e quais estratégias poderiam ajudá-los a recuperar o tempo perdido por causa de sua doença.

Uma outra possibilidade de cura é alertá-los sobre as bobagens que andam dizendo por aí sobre esta verdade tão arisca que a Filosofia vive procurando por toda a história da humanidade. É que os crentes são teimosos demais e tendem a uma certa autopiedade neurótica, uma certa vitimização quando são confrontados com a realidade real ou inventada, sentem-se atacados e tendem a assumir um papel de vítima, destas vítimas que buscam soluções, desde que elas não sejam encontradas, também por causa do narcisismo que é um dos piores sintomas do distúrbio da razão.

Teria que ser uma terapia choque, com o paciente trancado em jaulas fechadas, sem janelas, com outras pessoas também infectadas com a mesma razonite e num estado mais grave que a dele. Depois de passar dias batendo boca consigo mesmo e os outros, o paciente acabaria esgotando a sua energia como “dono da verdade”, teria chance de perceber que algo anda errado com ele, reconhecendo o absurdo dos seus próprios comportamentos e talvez assim possam começar a mudá-lo.

As chances de cura crescem quanto mais cedo o paciente reconhecer a gravidade de sua doença. Os mais idosos têm maiores dificuldades de cura porque são portadores da razonite há muitas décadas. Às vezes, eles têm maiores dificuldades em admitir que estão infectados, também porque são mais teimosos, arrogantes e confundem sabedoria e doença.

Alguns sofrem de razonite em estado tão avançado, que não têm mais chances de cura. O diálogo se tornou impossível, qualquer forma de tratamento é recusada pelos pacientes que insistem em afirmar que este é o seu jeito de ser infeliz.

Nesses casos, recomenda-se o isolamento e o autoflagelo, a esquiva dos contatos, já que a vida é passageira e curta demais para ser contaminada pelo mal dos quer sonham ter razão o tempo todo, isto sem falar, no risco de se contagiar e de se tornar um deles.

José Carlos Vitor Gomes, Psic.,

Cel. (19) 99191-5685

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