PÓS-VERDADE

conhecimento-700x300_cApós o acontecimento de um fato, vem os boatos, e os boatos são as coisas ditas ou malditas por alguém que não se sabe quem, em algum lugar que não se sabe onde, por alguma razão e algum “para que”, e das consequências e dos efeitos emergentes dos fatos-verdades e até das mentiras que podem vir a ser fatos e como realidade objetiva, elas; as mentiras, pode se fazer algo de real e verdadeiro.

A pós-verdade é um adjetivo que se relaciona e marca as circunstâncias, e os fatos objetivos têm um menor poder de influência na moldagem da opinião pública do que os apelos, os fatos, as emoções e a crenças pessoais.

Trata-se de um conceito novo que surgiu em 2016 e fechou o ano em alta, frequentando as mais famosas bocas, as telas e as páginas do mundo político e jornalístico mais voláteis. Segundo o Dicionário Oxford, editado pela universidade de Oxford, Inglaterra, foi uma das palavras mais buscada na língua inglesa com mais de 20 milhões de citações, 11 milhões em espanhol e 9 milhões em português, para que façamos uma ideia de seu sucesso.

Pouco importam os fatos em si, pois eles são menos importantes que as impressões, os apelos e as crenças pessoais. Pós-verdade não é algo novo num mondo onde nem mesmo a justiça é feita de verdades, mas de provas.

Para a justiça líquida, o que conta não é a verdade, que na verdade interessa muito pouco. O que interessa é aquilo que se prova e as provas, falsas ou não, têm o poder de esculpir e de reinventar verdades.

Por isto, a chamada “pós-verdade” é um adjetivo que qualifica, requalifica ou desqualifica as circunstâncias onde os fatos já não tem mais o poder de influência que tinha antes na construção e na moldagem das nossas opiniões e crenças.

Por isto, se usa tanto conceitos como “em tese”, “ao que tudo indica”, fica “evidenciado que...” porque, aqueles que gozam do poder do convencimento e de uma boa reputação, podem se tornarem mais “críveis” e isto tem sido aquilo que eu apresentei no meu livro “O caçador de si mesmo” nas chamadas “relações de placebo”, onde o que conta, é a fé naquilo que se apresenta e a nossa crença nos efeitos possíveis, nas coisas que têm interferido até mesmo os princípios ativos químicos.

Num efeito placebo, o mesmo medicamente oferecido por dois médicos diferentes ao mesmo tempo e para o mesmo paciente, um deles, se portador de uma boa reputação, faz com que a sua prescrição “cure” e a de um outro de má reputação, aciona menos a fé do paciente e faz com que o mesmo medicamento seja “menos eficiente”.

Não estamos estimulando cultos à mentira, mas refletindo sobre a irrelevância dos fatos na construção da verdade. Os julgamentos de fontes bem qualificadas vão amolecendo os significados e edificando sentidos novos que depois se tornam uma espécie de “jurisprudência”, embaralhando os códigos, codificando e recodificando as coisas que vão tomando novos rumos e se reenquadram e se ressignificam ao sabor dos interesses.

Em “As palavras e as coisas”, o livro de Michel Foucault, as palavras não significam rigidamente as mesmas coisas, mas funcionam como se fossem “xícaras” de significados que vão sendo escolhidos para o uso, para que elas, as palavras, sejam deformadas para a moldagem e a construção do sentido que se deseja construir para determinados fins.

O termo foi empregado pela primeira vez em 1992 pelo dramaturgo Steve Tesich, em um ensaio para a revista The Nation. Em 2004, o escritor americano Ralph Keyes o colocou o título “The Post-Truth Era”, ou, “A era da pós-verdade” em seu livro, e trata da desonestidade e da mentira na vida cotidiana, mas a sua popularização se fez pela revista The Economist, a partir de setembro/16, em seu artigo sobre a “Arte da mentira”.

O texto alertava o mundo sobre o advento de uma era política de pós-verdades, depois que os britânicos ignoraram os alertas sobre o “Brexit”, votaram a fuga da Comunidade Europeia, os americanos que desdenhavam das advertências sobre Donald Trump, e mesmo assim, não puderam fazer concretamente nada contra a sua eleição para a Casa Branca.

Atitudes políticas e econômicas indesejáveis, são tomadas por aqueles que paradoxalmente jamais votariam nelas.

Na Colômbia, o acordo de paz com as Farc foi derrotado em um referendo onde as igrejas evangélicas, especialmente aquelas que deveriam ser as mais interessadas pela paz, achavam que isto estimularia a homossexualidade infantil e afirmam que “O anticristo está na Colômbia”.

A fragmentação dos noticiários criou um mundo cada vez mais atomizado, em que mentiras, rumores e fofocas se espalhavam com uma velocidade alarmante, e mentiras compartilhadas online, em redes como meros boatos, são mais utilizados do que as notícias de quaisquer órgãos tradicionalmente mais confiáveis da imprensa e rapidamente ganham aparências de verdade.

A “pós-verdade” pode ser ainda creditada às deduções lógicas de uma época de conclusões construídas como se fossem verdades, mas que são “interpretações” feitas a partir da mídia, apreciada por analistas e nas quais os cidadãos confiam cegamente. Os que viveram a Revolução sabem que a falta de alguns produtos era construída no mercado, a menção de sua possível falta, gerava uma corrida para a estocagem, que gerava a falta do produto em uma espécie de profecias que se auto cumpriam.

Todos sabemos que os veículos que mais alertam contra os perigos das falsas notícias e sobre a política da pós-verdade, são os maiores disseminadores delas, resume o jornalista inglês Neil Clark e isto é tão absurdo como ouvir da boca de Al Capone apologias à moralidade.

A mídia acreditava numa invasão militar sanguinária, com milhões de mortos que poderia ser causada por uma guerra nuclear, cujas armas mencionadas viriam dos países a serem atacados, mas elas nunca apareceram, sabem por que? Porque, na verdade, isto justificava, por exemplo, o assassinato de Muammar El Kaddafi, para se evitar um suposto massacre que estaria por ocorrer em Benghazi e que nunca ocorreu.

A busca da ‘imparcialidade’ na veiculação de notícias, com frequência tem criado um falso equilíbrio, e temos que ouvir quase sempre com um terceiro ouvido o “outro lado” dos assuntos apurados, as suas versões ocultas que geram climas de paranoia porque não devemos acreditar em mais nada, nem nos fatos que alimentam o imaginário e supomos faltar sempre um lado da notícia e uma parte da verdade.

A “pós-verdade” talvez expresse a perda da credibilidade que afeta a política e a mídia, a imprensa que estaria “a serviço do Brasil”, mas que está de rabo preso com o leitor, que “faz a diferença”, e aos quais agrada para não perdê-los, e são os órgãos de imprensa que vendem a alma para o diabo para não perderem audiência.

A importância dos fatos é reduzida, a verdade se torna relativa e subjetiva e o cidadão se perde numa areia movediça dos noticiários, cada vez mais instável, e precisa angustiadamente da segurança e de certezas.

Assim, a era da “pós-verdade”, corresponde a um “pós-jornalismo” menos factual e mais interpretativo, como se a verdade que se vende fosse melhor do que a interpretação feita espontaneamente por cada pessoa.

Mesmo assim, parece que há um vício nas redes e uma pesquisa da empresa de tecnologia Kaspersky, apurou que 73% dos usuários das redes sociais pensam em excluir os seus perfis e só não o fazem, para não ficar longe dos “amigos”, deste exibicionismo crônico e das fofocas. Entre os americanos este índice chega à 78% de insatisfação e não se retiram pelas mesmas razões, porque as redes sociais se tornaram um mal necessário.

Esta insatisfação se justifica também pela perda de tempo, pelas meias verdades e as mentiras plenas que saturam e alimentam indistintamente os delírios generalizados e necessários nos tempos obscuros das “pós-verdades”, como dizia também o recentemente falecido sociólogo Zygmunt Bauman quando se referia às verdades líquidas.

A campanha de Donald Trump foi uma vitória da pós-verdade, daqueles que abusavam desdenhando dele no confronto da possivelmente vitoriosa Hillary Clinton, que era apoiada por Barack Obama, pelo Papa Francisco, por quase todo o planeta e todas as informações mais mentirosas e sem lastros de possíveis verdade. Já não importava mais os fatos e a verdade, pois os Estados Unidos pareciam enlouquecidos e possuídos por demônios idiotizados tinha que eleger o oposto de tudo o que sonhavam para si mesmos.

Finalmente, recorro-me ao velho Nietzsche e ao seu texto sobre “A verdade e a mentira no sentido extramoral” sobre o homem como espécie automentirosa, compulsiva e autoenganadora, sobre a verdadização arbitrária de versões das suas crenças a serem colocadas no centro do universo, com a arrogância transbordante dos sonambulo que não se enxergam e não consegue se livrar sequer dos seus roncos, onde a pós-verdade parece ser apenas um traço a mais em sua trajetória de auto enganos.

O mentiroso que faz o real nascer do que irreal, antropomorfiza e constrói uma verdade-mentirosa e, como diz um velho ditado: “de duas mentiras não constrói uma verdade”! E mais do que isto, um punhado de mentiras podem gerar supostas verdades e as verdades que nascem de mentiras tem pernas curtas, não deixam de ser reais porque não podem ser chamadas de “mentiras”, mas dissimulam-se e passam a ser chamadas de pós-verdades.

José Carlos Vitor Gomes, Psic.
(19) 99191-5685

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