Por uma alimentação estratégica

Os conceitos de dieta que destroem a própria dieta

Neste artigo, inspirado em estudos de especialista em regimes, começamos refletindo sobre a semelhança entre o homem das cavernas, das neves ou dos desertos sobre a questão da alimentação, aqueles que lutavam contra as suas tentações, e como reflito no livro “A História do Diabo”, são as lutas contra as transgressões que nos levam a transgredir.

O assunto é dieta, e fazer dieta, exige muito mais do que “força de vontade”, e as dificuldades em fazermos regimes e seguirmos as nossas dietas, entendidas aqui em um sentido tradicional e baseados no senso comum, parecem não levarem em consideração, aspectos psicofisiológicos de especial importância.

O primeiro deles é, na verdade, puramente fisiológico: se mantemos uma redução calórica por muito tempo, chega um momento em que o nosso corpo simplesmente se rebela, tentando recuperar de todas as formas possíveis, as calorias perdidas, independentemente da quantidade de gordura corporal que tenhamos acumulado para um eventual uso posterior.

O homem primitivo sempre se preocupou com a carência, mas nunca teve que se preocupar com a abundância ou com o excesso de alimentação ou de gordura, e historicamente as festas e os exageros sempre foram sinais disto.

Como afirmaram alguns estudiosos, partindo de um ponto de vista biológico, o nosso corpo é essencialmente idêntico ao dos homens primitivos, que tiveram que se preocupar apenas com a escassez e a falta, e não com a abundância de alimentos.

Em face de uma dieta demasiadamente restritiva, portanto, o corpo entra num estado de alerta sobre os ricos e os perigos da “carência” e acionam mecanismos de defesa, tais como a diminuição do metabolismo basal, com o consequente acúmulo das massas gordurosas a perda  das massas magras, mecanismo este que faz com que a perda de peso seja cada vez mais difícil, senão impossível, chegando inclusive a agravar o sobrepeso e a engordar os quilos que foram emagrecidos.

Igualmente importante é o segundo fator, que tem uma fundamentação estritamente psicológica. O conceito de dieta no sentido tradicional do termo que refere inicialmente à ideia de “limitação e de sacrifício”, e portanto, interfere profundamente no prazer que decorre da sensação fundamental sobre a qual se baseia a nossa relação com a comida. Ou seja, “quanto mais proibido é um alimento, mais fortemente ele dispara os nossos impulsos de transgressão em relação a este alimento que, em virtude de ser proibido, se torna cada vez mais desejado.”

A tentativa obsessiva de controlar a alimentação e o peso, portanto, apenas dão a impressão de que funcionam, porém inevitavelmente nos conduz à perda do controle, produzindo um aumento progressivo de peso e que é quase que definitivo.

Em outras palavras, a manutenção de uma dieta específica em termos clássicos, paradoxalmente, faz engordar mais do que se não seguíssemos dieta alguma.

A aparente incapacidade para se manter numa dieta qualquer por um longo tempo, se fundamenta, portanto, no contraste entre sensações, frustrações e vontades, o que nos leva à tentativa paradoxal de controlar e que nos faz perder o controle, cujo mecanismo, se repete com o passar do tempo, e é um dos principais fatores para o desenvolvimento de transtornos alimentares, como a bulimia e a anorexia.

O falso mito de que: “Basta ter um pouco de força de vontade” é particularmente ruim porque, na medida em que não temos em conta esses mecanismos psicofisiológicos básicos, acabamos culpando os que não conseguem seguir uma dieta, ignorando o fato de que, frequentemente, o problema está na rigidez das próprias recomendações para as dietas.

Qualquer dieta que separe os alimentos em “bons ou maus”, “proibidos e aceitos”, talvez porque sejam muito calóricos ou não, que estão permitidos ou não, terminam quase sempre gatilhando as transgressões, frente a qual a nossa força de vontade só consegue fracassar.

Assim, se queremos recuperar o sentido do conceito de “dieta” como “estilo de vida”, sempre teremos que preservar alguns prazeres em nossa relação com a comida e evitar uma excessiva rigidez.

Seja qual for a dieta que desejamos seguir, será sempre importante nos permitirmos pequenas transgressões calculadas, porque elas nos protegem das grandes transgressões, nos ajudando a evitar o desencadeamento da perda total de controle conforme descrevemos anteriormente e não podemos jamais esquecermos da prática dos exercícios físicos.

José Carlos Vitor Gomes, Psic.                                                                                                              19 99191-5685

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