O sentido do sem-sentido

Texto – José Carlos Vitor Gomes, Psic.

Que o rótulo pode interferir no sabor do vinho não é novidade. Que a palavra pode interferir nas coisas que ela descreve também não é novo. “A palavra e as coisas” é tema de estudos semióticos em livros de Michel Foucault, que dizia que uma palavra se assemelha a uma “xícara de significados”. A mesma palavra tem diferentes significados para cada pessoa que interaja com ela em diferentes tempos, lugares e culturas.

Eu percebi este fenômeno quando fazendo induções hipnóticas quando comecei a estudar placebos e “efeitos placebos” motivado por Jefferson Fish, Ph.D., em cursos e comunicações pessoais e quando traduzi o seu livro “Placebo Terapia” do inglês para o português.

Percebi que os rótulos e o transe negativo, no entanto, são cascas e em nada poderia afetar o espírito, o sentido e a essência humana.
Isto se aprofundou nos anos de estudos sobre hipnose e o trabalho de Milton Erickson, cujo pensamento apresentara ao Brasil, entre os anos 1992 e 2000, organizando cursos para o Dr. Jeffrey Zeig e discípulos de Milton Erickson para este fim.
Paul Watzlawick dizia que “o olhar do observador interfere e constrói o objeto que observa”.

Vamos nos ater à reflexão deste filósofo e aplicá-la ao contexto das relações humanas, nas terapias familiares e as relações interpessoais onde isto é especialmente verdadeiro, muito mais do que nas ciências químicas, físicas e biológicas e as suas aplicações nas mais diversas engenharias.
No que se refere às relações humanas “o olhar do observador constrói o que olha” e a fala constrói o objeto sobre o que se fala e achados assim criaram profundas reflexões.

O rótulo de um bom vinho pode melhorar a percepção do outro vinho que está no interior da garrafa e isto tem a ver com efeitos placebo.
Se por outro lado, o rótulo de um vinho ruim for colocado sobre um bom vinho e tiver o poder de piorá-lo, isto tem a ver efeitos Nocebo.

Em outras palavras e os rótulos podem interferir no conteúdo e transformá-lo, pode alterar a percepção e atuar sobre os princípios ativos químicos ou físicos das coisas e produzir efeitos.
Em saúde mental, o ato de rotular comportamentos e/ou pessoas tende a construir aquilo sobre o que se fala. O olhar do observador constrói o objeto que ele observa. A rotulação pode gerar a loucura e o louco, bem como a doença e os sintomas.

Também não é novidade o fato de que os problemas de comportamento podem ser frutos de “rótulos”, de estigmas que algumas pessoas colocam sobre as pessoas, por exemplo, através boatos, fofocas e julgamentos.

Com o tempo; o meio, a família e a cultura com seus julgamentos, rótulos e avaliações vão qualificando as pessoas e suas reputações. Isto equivale dizer que pessoas podem ser colocadas em crise quando tratadas como alguém que está em crise, um drogado pode se tornar definitivamente um drogado se for tratado como um drogado e assim por diante, uma pessoa pode se tornar estranha quando tratada como estranha.

Os rótulos poderiam assim ser considerados “diagnósticos interventivos” e são intervenções transformadoras de comportamentos, construindo a doença quando são “considerações negativas” sobre a pessoa, ou fazendo terapias e construindo a saúde espontaneamente quando são “considerações positivas” ou elogios a esta pessoa.

A hipnose ruim feita pela família e a cultura sem saber que o fazem, atua ao contrário e geralmente são as “conotações negativas” e as críticas que induzem os chamados “transes negativos”, uma hipnose feita espontaneamente pelo meio quando são negativos, fofoqueiros e pessimistas.

As “considerações positivas” ou elogios são intervenções terapêuticas comuns nas abordagens estratégicas, sistêmicas e construtivistas, na Escola de Milão de Terapia Familiar Sistêmica, na Escola de Palo Alto, na Escola Romana de Terapia familiar e entre os discípulos de Milton Erickson.

Os problemas comportamentais seriam então construídos. As neuroses seriam produzidas. O louco seria um produto. A loucura seria fabricada. A doença mental resultaria de transes hipnóticos negativos sutis feitos pela cultura, pelo sistema, pela família onde a pessoa está inserida, onde as sugestões, a confusão e a hipnose são ocultas, imperceptível e inconscientemente.

A manipulação, o convencimento, dissimulação e o uso do poder que induzem os transes naturais da vida cotidiana e das relações também são hipnoses (Haley, 1972, Richeport, 1998).
Na verdade, temos dois tipos de hipnose; uma é aquela hipnose feita pela família e a cultura que induzem “transes negativos” que são as doenças, e sendo saudável pode também curar. Esta é uma indução feita inconscientemente e eles nem sabem que o estão fazendo (Richeport, 1998).

O segundo tipo de hipnose é aquele que é feito clinicamente pelo profissional no consultório, são os “transes positivos” e têm o objetivo de curar e eliminar as doenças que, na verdade, são transes, são as doenças criadas, implantadas ou induzidas inconscientemente pela família e o seu meio cultural da pessoa.

As pessoas “não são” loucas e passam a ser “chamadas” de loucas; ao contrário, elas são chamadas de loucas, e em consequência disto se tornam “loucas”. Elas adoecem especialmente quando reagem ao bullying emocional e começam a lutar contra os rótulos e os estigmas que sobre elas são colocados ou contra os sintomas que as incomodam.

Existem rótulos que produzem neuroses, que atuam como diagnósticos interventivos e que são conceitos conhecidos pela cultura e sobre eles este trabalho deseja refletir para esclarecer suas origens imprecisas e/ou incidentais.

As palavras constroem aquilo que elas descrevem e quando se
referem ao humano, pior ainda, a cabeça e a inteligência refletindo sobre o próprio homem são perigosos no sentido de que eles constroem quase sempre aquilo que veem e inventam aquilo que descrevem.

O que chamamos de loucura, neurose, psicose, insanidade, desvio de comportamento ou desrazão, entre outros nomes, às vezes são modismos que apareceram e desapareceram ao sabor do tempo, da cultura, do sistema, da moral e dos costumes.

A inteligência é maravilhosa para a ciência e a tecnologia, mas em termos de saúde mental, afetiva e comportamental; sobretudo quando se refere à “loucura”, tudo o que faz mal ao homem parece ter sido criado por ele mesmo na medida em que trabalhava para a cura e para o progresso.

Neste sentido, a psicoterapia mal feita pode ser uma das mais perigosas artes de se adoecer, porque ao trazer em si “a intenção” de curar, ela reconhece e fortalece o inimigo e pode ser o olhar que aniquila a espontaneidade e a cura, sobretudo e especialmente quando arrogantemente “se propõe” a transformar e a curar.

A proposta de curar pode ser um erro estratégico, uma ingenuidade, uma presunçosa e inadequada “venda de esperança” quando sabemos que o sistema reage contra a cura, resiste e sabota, mesmo porque, por razões homeostáticas, tende a continuar como se encontrava antes (Bertalanfy, 1978, Palazzoli, 1972).

Para as relações afetivas e humanas, a cabeça e a inteligência, ao invés de ajudar nos atrapalham, trabalham contra nós, e a dificuldade está no fato de que nem sempre o aceitamos e nos iludimos achando que temos alguma chance de trabalhar a nosso próprio favor.

Por isto mesmo, as técnicas da prescrição de sintomas, a paradoxação, a hipnose e as abordagens estratégicas, sistêmicas e constelacionais, aquelas que tendem compreender e a “utilizar” o sintoma para transcender o próprio sintoma têm se mostrado mais eficientes.

Isto é verdadeiro mesmo para as abordagens mais religiosas, que intuitivamente tendam a buscar o sentido da dor, às vezes agradecendo e abraçando resignadamente o sofrimento, outras vezes fazendo as pazes com a dor e assim tendem a obter os melhores resultados na cura (Erickson, 1974; Haley, 1966; Fish, 1987).

Explorando um pouco a origem de algumas palavras usadas para descrever o que conhecemos como Loucura, entendemos que a luta para a construção do sentido e da história da psiquiatria, deveria talvez partir do resgate histórico dos seus conceitos mais importantes, por exemplo:

O que significa “doido”
E se começarmos com o conceito de “doido”, veremos que ele este conceito absurdo tem origens lendárias e incertas. Ele aparece pela primeira vez em Portugal como “doudo” no século XVI e provavelmente se refira ao pássaro Dodô, ave extinta e símbolo da capacidade destrutiva humana.

Os pássaros Dodôs (Raphus Cucullatus) ficaram famosos por terem sido citados em “Alice nos país das Maravilhas” e ainda foram visto pelas ultimas vezes por invasores marinheiros no século XV, entre os anos 1598 e 1660, nas “Ilhas Maurício”, no oceano Índico, em Samoa, em várias ilhas da região de Madagascar, segundo o naturalista Julian Pender Hume da Universidade de Portsmouth na Inglaterra.

Este é o pássaro Dodo das Ilha Maurícia no Oceano Índico
Trata-se de um pássaro arredio e estranho, às vezes se parecia a um peru enorme e outras vezes aos avestruzes, pesando até 18 quilos. Eram desadaptados como pássaros que não voavam, mas desadaptados também como qualquer outro animal do mundo porque tinham asas inúteis.

Aos poucos o pássaro Dodo perdeu a sua capacidade de voar porque os alimentos se encontravam no chão e ao alcance do bico. Suas asas ficaram pequenas demais e desproporcionais ao tamanho dos seus corpos pesados e entraram em desuso.

Eles foram extintos porque eram presas fáceis. Os invasores famintos e os animais predadores mais ferozes foram destruindo o pássaro Dodo que ainda foram vistos, como disse, no século XVI.
O que significa louco?

O louco é alguém que não tem acesso à sua própria a si mesmo e à própria loucura e não pode agir contra ela e seus sintomas. Ele é proibido de olhar para si mesmo. Os olhos do observador olham o mundo inteiro e não podem ver si mesmos.
Quanto mais se reage contra a loucura, quanto mais se movimenta, mais o louco se afunda na areia movediça dos seus mistérios. Quanto mais se olha, mais ele se piora, como na maldição de Medusa que transforma em estátua de sal todos aqueles que olham para ela, mas paradoxalmente estabelece um duplo-vínculo, onde fica explicito que “faça o que você quiser será punido, mas se nada fizeres, será punido por não fazeres nada”.

A Medusa (acima), assim como a Esfinge ainda coloca uma condição fatal quando diz “desvenda-me ou te devoro”, mas se olharmos para ela para tentar compreendê-la e desvendá-la, nos reduzimos a uma mera estátua de sal.

Quando mais o louco luta contra a sua loucura, mais louco se ele torna para si mesmo e para quem o olha de fora. Em outras palavras, a luta para sair da loucura era vista pela Santa Inquisição e a velha psiquiatria como um agravamento, como piora e como auge da própria loucura.

Não importa o quanto lutemos para que os relacionamentos melhorem, às vezes, nos é difícil perceber que algumas relações não foram feitas para funcionarem e que alguns vínculos precisam ser necessariamente ruins.

A intenção deste texto é desvendar um pouco os mistérios destes conceitos, buscando as suas origens verbais e culturais, vendo a forma como um rótulo que deveria apenas descrever ou explicar a “coisa” em questão, às vezes fazem exatamente o contrário, piorando, construindo e mantendo a complicação daquilo que já é complicado.

Portanto, se fossemos bem pensar, deveríamos ser proibidos de falar sobre o louco e a loucura porque nisto consiste a loucura e o agravamento dela. Loucura é metacomunicação. É a fala sobre a fala, a conversa sobre a conversa, e assim a loucura é a fala e o olhar sobre si mesma.

Em busca de um lugar

Louco é uma palavra que flui do espanhol “loco” e tem a ver com “lócus” que em latim significa “lugar”. Como sugerem Viktor Frankl, Foucault e Ronald Laing; louco é o ser “deslocado”, aquele que está fora do seu lugar potencial no mundo.

O louco é o perdido que, sem clareza sobre o seu destino se perde no vazio existencial e tende a buscar o seu lugar no mundo e um sentido para sua vida, mas precisa antes não ter lugar algum.
Loucura é a vida sem um lócus, sem lugar, loucura é viver sem destino, sem um “para onde” e sem ter nenhuma direção. Em espanhol endereço é “dirección”, que é ao mesmo tempo uma direção e um sentido para a vida.

Com este enfoque, se olhamos historicamente, o conceito de louco ainda é visto como era antes, precisamente como um andarilho, um “easy rider”, bem representado pelo filme que inaugurou a era dos “Sem destinos – Born to be wild” em que o homem paradoxalmente era perdido para se encontrar e se encontrava para se tornarem selvagens e o encontro se faz urbanamente na cidade.

Zymunt Bauman se refere a esse homem sem território que perdeu o seu lugar num mundo, num tempo em que a distância acabou e com o aumento da velocidade que de tão veloz, matou a geografia. Com a evolução da comunicação ha uma aproximação eletrônica e um distanciamento real e afetivo.

Esta é uma era em que os “loucos” estão cada vez mais distanciados do seu lócus e dos seus valores. Eles estão em torno da mesa para o encontro e ao mesmo tempo estão sozinhos perdidos e teclando com seus fantasmas. Todos estão ao mesmo tempo juntos e sozinhos, no lugar sem lugar da nova era.

Vemos a era do amor líquido e nos perguntamos onde estamos, qual é o nosso lugar “se é que temos algum lugar!” Será tenho um lugar especial dentro do coração de alguém? Um lugar ainda que seja meramente geográfico? Tenho certeza sobre a minha relevância para mim mesmo e para o mundo? Para quem? Onde? Até quando?

A loucura é também um estado de alma que flui da falta real de um “lócus”, ou de um lugar no mundo. Ou talvez pela paralisia que nos faz apegar demais a um estado, a um lugar, às coisas, às convicções e até aos pré-conceitos.

Estamos nos referindo ao louco como um deslocado, alguém que se perdera nas “colinas do nada” do seu “nothing hill”, na “terra do nunca” e o seu “neverland” como na metáfora viva de Michael Jackson sobre a terra do nunca e do vazio.

O homem sem “lócus” é o também o “Nowhere Man” perdido de “nowhere land”, que na metáfora dos Beatles é esse vagabundo que se procura pela “terra de ninguém” buscando a felicidade, a terra prometida, um lugar “onde” ele pode ser amado como alguém real que, apesar de todo geoposicionamento e do GPS segue para “lugar nenhum” como se revela na canção abaixo.

Homem de Lugar Nenhum
(Nowhere Man – Lennon & MacCartney)

Ele é o homem de lugar nenhum, sentado na terra de ninguém, fazendo todos os seus planos para nada e para ninguém.
Ele não tem ponto de vista, não sabe para onde vai. Será que ele não se parece um pouco com você e comigo?
Homem de lugar nenhum, por favor, ouça-me; você não sabe o que está perdendo!

Homem de lugar nenhum, o mundo está sob o seu comando.

Ele é tão cego o quanto pode ser, vê apenas o que deseja ver… Homem de lugar; será que você é capaz ao menos de me perceber?
Homem de lugar, não se preocupe! Você tem tempo. Vá com calma! Siga adiante até que alguém lhe possa estender a mão.
Ele é o homem de lugar nenhum, sentado numa terra de ninguém, fazendo todos os seus planos para nada e para ninguém.

O mais estranho é que o perdido precisa da sua condição de perdido e estando fora do seu lugar, do seu “lócus” ou do seu eixo, eles se procuram e procuram mais do que um lugar geográfico, mas um lugar afetivo, o lugar dos valores, da saúde, da normalidade, da paz e da felicidade.

Não ser amado, é não ter um lugar no mundo, e a falta do seu “lócus” é a falta da própria vida. Apesar de todas as referencias, do rastreamento via satélite, do geoposicionamento global e do GPS, os perdidos continuam perdidos, sem lugar e clamam por uma razão e um sentido para a vida.

A demência e o fim da consciência

Na era da demência vamos começar pensando sobre a palavra “demente”, ela que apareceria em espanhol por volta do século XII e descrevia certos mistérios inerentes à loucura e a relacionava com a perda do sentido, da consciência e da razão.

Veremos que o conceito de demência vem do latim, dementia e se (deriva de demens). De-mens é o demente que também significa “sem/mente”. É aquele que não está em seu juízo, o insensato, e talvez se aproxime do que hoje conhecemos como mal de Alzheimer e a demência senil.

Descrevendo melhor, “mens” é intelecto, a alma, o espírito, e ao mesmo tempo e contrariamente, “a-mens” ou “de-mens”, é aquele que vive sem razão, pretensamente sem alma, sem espírito ou sem o atributo da razão, como se ela em si mesma fosse a saúde e a normalidade.

Certa vez um jovem muito empreendedor e ambicioso visitou o filósofo Rubem Alves e lhe perguntou: – “O que o senhor fez para se tornar tudo isto?” provavelmente querendo copiá-lo. Ele disse; – “Caro jovem eu não tenho como orientá-lo, porque aquilo hoje eu sou eu devo ao fato de tudo ter dado tão errado em minha vida!”
Às vezes é a loucura que faz as coisas darem certo e se tornarem normais.

Existe em português um verbo cada vez menos utilizado, que às vezes aparece no meio mais erudito relacionado ao direito, que é o verbo “dementar”, que significa “tirar a mente”, tornar-se demente, sem mente e/ou até “enlouquecer”.

O termo “demência” é ainda utilizado tecnicamente para descrever o processo de deterioração mental e algumas dificuldades cognitivas adquiridas e relacionadas com AVCs ou patologias cerebrais.
Estamos relacionando a loucura, ao “lócus” como sendo um lugar também imaginário e não uma pessoa.

Outro sinônimo de louco e do portador da loucura é decorrente do conceito de demência, do latim “de-mens” (sem/mente), e surge de vez enquanto numa referência ao louco como sendo um Mentecapto.
“Mentecapto” também vem do latim “mente captus”, sugerindo literalmente que a mente possa vir a ser roubada, tomada ou captada e sobre uma possível “privação da mente”. Mentecapto é aquele que não faz uso da razão que possuiu nem para os outros e nem para si mesmo.

O seu primeiro uso aparece com filósofo Cícero usando o termo para se referir a alguém idiota, privado de sua mente que de alguma forma fora tomada, roubada ou captada. Na literatura portuguesa um dos personagens mais conhecidos com estas características é representado por Geraldo Viramundo, no romance de Fernando Sabino, chamado “O grande mentecapto”.

Mentecapto, doido ou o louco, são palavras que parecem correr risco de extinção pelo seu caráter pejorativo, desumano e politicamente incorreto do seu uso, especialmente em tempos de resistência contra o bullying e a luta antimanicomial.
O louco de pedra

A expressão “louco de pedra”, tem sua origem na mágica e na hipnose, e não se trata simplesmente de uma referência ao fato do “louco ser perturbado a ponto de sair por aí atirando pedras”, cujas referências eram usadas para descrever indivíduos que devido à falta de juízo agrediam pessoas.

A gravura de van Leyden (acima), retrata um falso cirurgião itinerante que no século XVI impressionava pessoas extraindo pedras da cabeça delas. Com isto ele sugestionava plateias, curava pessoas por sugestão e as pedras retiradas simbolizam a loucura.

Nesse procedimento, após um corte no couro cabeludo e um movimento de mágica, as pedras surgiam nas mãos do cirurgião. A seguir eram mostradas ao paciente como sendo “a doença” e finalmente atiradas fora, com a finalidade de curar hipnoticamente usando a sugestão.

A história do Brasil constelada

Os primeiros registros sobre a alienação e os alienados em nossa cultura se dá na descoberta do nosso continente que foi feita por piratas de índoles horríveis, a pior escória de criminosos condenados à prisão e à morte na Europa.

Num exame constelacional de grupo (usando as constelações familiares de Bert Hellinger), os professores Peter e Tsuyuko Spelter em workshops sobre a história do Brasil ficou evidente a atuação destas origens comprometidas nas raízes da loucura, da violência e da corrupção em nossa bagagem social e história.

O assassinato moral e a opção pelo avesso da ética se deram em nossas origens, nas escolhas feitas ainda por nossos colonizadores com fundamentos ilegais, desumanos e criminosos.

Em segundo lugar, as nossas heranças históricas e culturais foram contaminadas por gerações de opção pelo escravagismo, por uma conduta criminosa institucional com séculos de sequestros, trabalhos forçados e cárcere privado de milhões de pessoas.

Na prática, o que outrora fora feito foi um roubo maciço de vidas e de almas escravizadas com o sacrifício de milhões de índios e negros. Estávamos presentes lá com o nosso DNA que participou de tudo isto e em tudo o que conseguimos, há uma fração das impurezas que ainda pagamos com a violência, a miséria e a corrupção.

Os descobridores eram homens que não tinham nada a perder e aqui chegando, escravizavam índios e violentavam índias, e todo este abuso oficial passou a ser um problema de saúde mental, embora naqueles tempos não soubessem disto.

O movimento começa, pois, com a colonização feita por criminosos e prossegue num segundo momento, quando justificados pela falta de mãos de obra compravam-se escravos, que eram arrancados da sua terra, dos seus familiares, do seu povo e eram trazidos para “o nada”, em missões que não eram as deles que sequer eram considerados gente.

Entre os negros vemos outros conceitos importantes de loucos ou “sobre” a loucura, que eram nomes diferentes para a mesma coisa.

O enlouquecimento agora era o “banzo” que resultava da vida num mundo estranho, do profundo vazio dos seres roubados até de si mesmos. O fato é que a inteligência humana era e é fria e artificial demais e nunca foi compatível com a vida e com a natureza. O “homo sapiens” tem uma cabeça e uma inteligência que trabalha contra eles mesmos nas questões humanas e relacionais.

O reposicionamento existencial

O ser humano deslocado, posicionado fora do seu “lócus” era agora o “louco”, vítima do terrorismo da escravidão e estava claramente desadaptado, em outro continente onde viviam abandonados num clima absolutamente estranho, agressivo e enlouquecedor.

Da mesma forma que as espécies que migraram acidentalmente em navios e entraram em conflito com a natureza e espécies locais, eles atuavam na marginalidade. Estavam historicamente revoltados porque depois de serem usados para a construção de um Império, foram descartados dele, não eram mais úteis, eram “desnecessários”, e mais do que isto; eram indesejáveis.

Isto acontecera em todos os lugares onde os negros foram segregados, proibidos de entrar, seja nos países colonizados do Novo Mundo e até na própria África como no “apartheid” sul africano, contra o qual se levantaram líderes como Nelson Mandela, Desmond Tutu e Gandhi.

A Lei Áurea, a Lei do Ventre Livre e da libertação da escravatura de fato jamais aconteceu, porque a sociedade não libertou, ela simplesmente abandonou os escravos e não pagou a sua dívida moral e social para com eles, e isto é e ainda seguirá sendo cobrado e resgatado constelacionalmente por séculos.

Sabemos que não existem americanos puros porque todos vieram de outros países, de outros mundos e outros continentes e aqui nos encontramos e nos tornamos a mescla de um povo novo, para um Novo Mundo para novas nações, novas missões e novos sentidos e trouxemos nossa bagagem transgeracional e genética dos nossos povos de origem.

No final do século XVIII, Machado de Assis, compôs um livro “O alienista” onde estuda ao seu modo a loucura. Precisamos nos lembrar de que Machado de Assis era negro e descendente de negros.

O alienista foi o primeiro livro sobre saúde mental escrito no Brasil onde se buscava uma aproximação ao tema e o desvendamento de conceitos de loucura e seu para mutilar pessoas. Tal livro nasce de um legítimo representante deste povo explorado e enlouquecido pelos nobres europeus e os assim chamados “homens de bem”.

O Alienado literalmente é aquele que se mantém alheio e/ou distanciado da realidade. Sua realidade era a África, seu lócus agora distante. A palavra alienado vem do latim “alienatus” e se derivado de “alienus”, que pode significar muitas coisas entre elas no cinema foi “aliens”, mas poderia ser também “o estranho”, de “O estranho no ninho” de Jack Nicholson.

O “alienado” é ainda o alheio, o isento, aquele que é impróprio, inadequado – que, aliás, é uma palavra que os psicólogos multiusam, mas é também aquele que é “do contra”, que é contrário a tudo e que geralmente é um inimigo, talvez o manifestante revoltado que hoje é o seu próprio predador.

O Alienista, por outro lado, é aquele que cuida dos alienados, cujo antigo nome era dado aos médicos que tratavam dos doentes e que foi, conforme mencionado anteriormente no tema do livro “O alienista” de Machado de Assis.

O que é maníaco e manicômio?

O conceito de Mania da mesma forma, em língua portuguesa coloquial tem a ver com estranheza, excentricidade ou esquisitice. O termo é usado em psiquiatria para se referir a um estado de euforia e agitação comum entre os bipolares maníaco-depressivos e são próprias da fase não melancólica deste transtorno psicoafetivo, onde o sujeito é aparentemente otimista e positivo.

A palavra mania vem da língua francesa “manie”, talvez da psiquiatria de Jean Esquirol, que agrega conceitos como os de “folie” (loucura), como a lypémanie (hipomania) e a monomanie que é a preocupação exagerada com uma coisa só.

Mania provém do grego “mania”, onde significa também loucura e “demência”. Portanto, o Maníaco é visto como louco; alguém agitado, hiperativo e furioso, cujo conceito é usado para designar criminosos e pessoas desequilibradas.

O manicômio era o estabelecimento para internação dos maníacos e/ou para o tratamento de loucos. Era um loucódromo! Um “depósito” de loucos, visto que o nosso país foi um excelente exemplo de péssimos manicômios que chamaram atenção pelo que tinham de desumano e de bizarro como era o Carandiru, a Ilha Grande, o Juquirí, Barbacena e etc.

A palavra manicômio é composta de “mani” do grego (louco) + (comio) do grego “kómeo”, que é literalmente o pretensamente chamado de “o lugar da cura” que por aqui era, na realidade, um lugar onde as coisas em geral pioravam e se tornavam irreversíveis.

Os manicômios assumiram um caráter negativo se tornando os locais para a segregação e jamais para a cura de coisa alguma, onde os doentes mentais eram colocados para não serem cuidados e se tornaram depósitos de loucos.

A palavra frenesi era antigamente utilizada para designar fortes delírios decorrentes de alterações cerebrais agudas. Hoje também significa agitação, barulho, exaltação e atividade intensa. Provém do latim “phrenesis” onde era uma espécie de ‘delírio frenético’ e deve ter vindo do francês “phrenesie” por volta do século XIII.

Uma parte da palavra frenesi, “phren” está no conceito de esquizofrenia onde “phren” significa “alma” e esquizofrenia seria uma espécie de “divisão da alma” ou alma dividida.

Os conceitos africanos de loucura

A palavra “maluco” foi muito vulgarizada e faz referência ao sujeito que sofre de transtornos mentais graves, é um louco, um alienado ou um excêntrico. A origem do termo pode se derivar da palavra “mal”, mas também pode ter uma origem no banto, língua de povos africanos e significar também louco, tonto, bobo ou endoidecido.

Desta mesma origem, o Banzo, era a melancolia que os escravos sofriam por saudade da sua terra e do seu povo, quando após terem sido desterrados, ou seja, tirados da sua terra, eram tomados por uma depressão grave, e a perda real de um sentido para a vida que frequentemente os levavam à morte.

Mais tarde o termo Banzo foi usado para descrever estados de tristeza, melancolia, depressão, paixão, abatimento, nostalgia, lembranças, saudades e mágoa.

Finalmente, o que chamamos de chilique, são ataques dos nervos pela perda da consciência talvez por razões dissociativas como em desmaios, vertigens e prostrações. A origem desta palavra não é conhecida, mas pode também é atribuída às suas origens na língua banta.

Conclusão

Nos dias atuais surgiram gírias e palavras novas que podem durar por alguns anos como, por exemplo; “bater fora do bumbo” quando dizemos que alguém “não bate bem”, “estar fora da casinha” quando se diz que alguém está “fora de si” ou fora das suas “faculdades mentais”.

Os rótulos e os conceitos sobre o louco e a loucura são dinâmicos, aparecendo, se tornando moda e desaparecem na cultura com o tempo. Muitos deles não se encontram neste trabalho que é parcial e pode ser ampliado, corrigido e melhorado por outros estudos e outros pesquisadores.

O que há de interessante a ser realçado no presente estudo sobre rótulo da loucura é que, diferentemente de outros rótulos, ele tem o poder de construir o louco como louco.

Julgar alguém anormal ou louco pode produzir ou piorar a sua loucura, especialmente se o rotulado reage contra o seu rótulo, inclusive, por vezes, quando procura ajuda psiquiátrica, toma remédios ou faz terapias.

Alguém adoece, por exemplo, quando tem insônia e luta para dormir e não dorme, quando o impotente luta para ter ereção e piora ainda mais, ou quando o alcoólatra e o dependente químico, apesar de toda a sua luta, e do seu “tratamento” continua mergulhado em seu vício (Szazs, 1969; Laing, 1972; Frankl, 1972).

Todo louco esconde dentro de si uma faísca de luz que corresponde à Presença ignorada do suprassentido, do “Imponderável” espírito ao qual Viktor Frankl se refere.

Precisamos cuidar para não passarmos pelo vexame da Artista Global famosa que visitando um hospital psiquiátrico tenta aconselhar um dos piores pacientes internados pelos seus frequentes problemas de comportamento e suas prisões, quando então o “louco” disse a ela: – “Olhando o mundo a partir da minha perspectiva, curiosamente, quem está atrás das grades é você”!
José Carlos Vitor Gomes, Psic.

REFERÊNCIAS

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Haley, J., Richeport, M., Publicação Universidade de Natal, RN, 1966.
Hume, Julian Pender; Os dez conselhos dos pássaros Dodos para escapar à extinção, Part. I, II, III, IV, V, VI e VII, Youtube.
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Palazzoli, Mara, S.; Paradoja y contraparadoja, Paidós, Buenos Aires, 1972.
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