O Roubo da Cura

A experiencia mostra que, todas as vezes que você "tenta ajudar" alguém que não merece, não se gosta e valoriza a ajuda, você se dá mal. Terapeutas não precisam e não devem ajudar os seus clientes. Basta apenas abrir os seus corações para que eles se ajudem através de nós.

Quem se cura é o paciente e quando ele precisa, quer e merece a cura, o alívio e a paz, os efeitos placebo atuam no seu íntimo, potencializando inclusive os princípios ativos químicos de eventuais medicamentos, e os tornam poderosos na medida necessária para a construção da cura que ele precisa e é digno merecedor.

Com a psicoterapia acontece exatamente a mesma coisa.

Aquele que se cura é precisamente aquele que se faz digno merecedor dela, e então a terapia atua evoluindo para o bem. Mas existem aqueles que precisam dos problemas que eles têm. Eles vêm à terapia para serem curados pelo profissional, numa cura “bancária”, como se a solução estivesse pronta numa prateleira e não para que eles se ajudem. Eles ficam vigiando seus terapeutas e qualquer mínimo deslize, ele será fuzilado como profissional, eventualmente "fired", eliminado por ousar disponibilizar a ajuda.

Demorou muito para que eu aprendesse que o terapeuta é uma construção do seu paciente, a quem ele, com a fé que ele precisa ter como um presente para que na relação de placebo ela atue em seu favor, para que ele construa a cura que ele se faz digno merecedor.

Finalmente compreendi que embora eu possa dominar todas as técnicas do mundo, muitos não aceitam, não precisam e não desejam serem curados e que a única coisa que eu preciso é ser ético e me cuidar para ajudar o paciente a investir a sua fé confiando em mim, e assim, ele não precisa de mim como expert, mas como alguém em quem ele possa acreditar.

Aprendi que a terapia é uma construção feita sob medida pelo paciente, segundo as suas permissões interiores para se curar ou não, segundo os seus méritos, as suas culpas e expiações, e então, eu compreendi melhor esse "produto" que a terapia é ou não é, mas que curar ou não, é algo que está na relação e reside muito além de nós.

Eu aprendi, por exemplo, que quando o paciente pede "descontos", é porque ele talvez não acredite em si mesmo, é miserável para consigo mesmo e tem dificuldades de investir em si mesmo. Mas, pior ainda, é quando o paciente NÃO PAGA a sua terapia. Ás vezes, eu entendia equivocadamente que ele estava com dificuldades financeiras, e passava um mês, dois meses e de repente, do nada, ele sumia e deixa a conta por acertar.

Em situações assim, terapeuta fica se sentindo uma “porcaria”, talvez desvalorizado ou desqualificado, porque para nós, os terapeutas, o honorário, que como diz a própria palavra, é o que nos "honra" e nos faz sentirmos humanos, reconhecidos e dignos, mas nem sempre é o que nos interessa diretamente, pois o que buscamos é mais a nossa honra, o sentido das nossas vidas e isto fica muito além do dinheiro em si.

Na prática, todos os pacientes que pediam descontos porque não conseguiriam pagar, eram os que mais davam trabalho porque, na verdade, "não queriam se curar", eram os mais agressivos e exigentes, eram mais críticos e eram os que de fato podiam nos prejudicar, e isto, o que aconteceu comigo em muitas situações no passado.

Por outro lado, os pacientes que pagam pouco, sentem-se culpados e não se acham dignos merecedores da cura e dos resultados das suas terapias. Há pouco tempo, uma pessoa ainda acabou agindo assim e saiu sem pagar, mas de longe se percebe que ela também não mudou em quase nada e está entrando mais uma vez em suas autossabotagens.

Ela deixou meses de terapia sem pagar talvez pensando em punir o profissional ou os símbolos que ele representasse para ela, talvez por não dar o que foi pedido, como se a cura fosse um "produto" e as sessões fossem pacotes de soluções.

A punição também é feita com uma intenção auto-agressiva, para voltar contra si mesma, para construir novas ilusões de sucesso, para sabotar os resultados do que vieram a duras penas num trabalho terapêutico e para destruir o seu futuro.

Sabem? Há muitos anos, eu ainda tinha um Inglês ruim e mesmo assim fiz a tradução de um livro chamado "Placebo terapia" de um antigo professor americano chamado Jefferson Fish. Era importante para mim. Não cobrei um centavo, mas ganhei tanto!

Na verdade, foi um início de um amplo estudo que eu fiz sobre "a questão da fé no processo de cura" e os efeitos placebo. Descobri que, na verdade, quem se cura é o próprio paciente, e isto aparecia até nas curas feitas por Jesus Cristo que dizia sempre; “Agora segue... Foi a sua fé que te curou”.

Assim, o bom terapeuta não é necessariamente aquele que cobra horrores, que às vezes demonstram com isto uma certa “pré-potência”, algo do tipo eu sou "o melhor", mas, houveram excelentes terapeutas como é o caso do Dr. Milton Erickson, que cobrava apenas $40 (quarenta dólares) por consulta e foi considerado um dos maiores terapeutas de todos os tempos.

No que se refere a mim, receber ou não receber tanto faz. Eu não conto com o dinheiro de pacientes. Para dizer a verdade, pagar ou não pagar é muito mais um problema do meu paciente do que meu. Sabem por que? Porque os resultados e os benefícios da terapia são construídos pelo próprio cliente (com a sua fé), porque é ele quem planta e colhe, mas quando investe mal, a culpa que lhe arrasta pelo tempo, atua eliminando qualquer possibilidade de cura e de felicidade.

Eles demonstram o quanto são mal-agradecidos e desrespeitosos com aqueles que os receberam, o quando se acham "ruins", o quanto se odeiam, e, por fim, rejeitam a cura construindo as suas próprias culpas, cientes de que é impossível roubar a cura que eventualmente fluiria de uma relação terapêutica e não do terapeuta, dando golpes, obtendo resultados indevidos e sem pagar por isto.

Quando paciente não paga, ele não se sente digno merecedor da sua cura.

Como tenho pensado e dito aos meus colegas de profissão: "isto não é problema do terapeuta, mas do próprio cliente, porque de uma forma ou de outra ele sempre pagará por isto". A única coisa que precisamos é tomar todo cuidado do mundo com a nossa imagem porque ela ajuda o paciente a construir a sua relação de placebo e acreditando em nós, ele se cura.

Imaginem o que pensaria um paciente, caso visse o seu terapeuta em uma roda de cervejas e talvez então se questionasse; “o que será dos meus segredos quando ele tomar todas aquelas cervejas”?

Para concluir, eu, de minha parte, faço o meu contrato combinando valores e o dia do pagamento e deixo isto à cargo do meu paciente e quando não pagam, eu não faço cobranças porque não sou um financista e nem cobrador.

Estou consciente de que, quando ele não age corretamente, a primeira coisa que acontece é que a terapia deixa de agir, os resultados caem por terra e ficam aquém do que esperavam e isto interessa muito mais ao meu paciente do que a mim, e quando isto volta a acontecer eu interrompo a terapia, realizo a perda financeira e acato o prejuízo.

José Carlos Vitor Gomes

(19) 99191-5685

 

 

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