O Milton Erickson de cada um de nós

A borboleta caminha no braço de um homem e pensa que o homem é dela, mas o homem pensa a que borboleta é sua. Cada um tem a sua maneira de ver o mundo e o Psiquiatra Milton Erickson, sabendo disto não queria ver as coisas apenas com seus próprios olhos. Ele ajudava o cliente a fazer a sua cura, a sua hipnose e não fazia como tantos a questão de ser ele o poderoso hipnotizador, ao contrário, ele enfatizava o poder do cliente se auto hipnotizar.

No meu caso, foi este o lado de Milton Erickson que desde o princípio me chamou a atenção, a sua humildade profunda e quase que estratégica, que já em 1977, quando pela primeira vez o vi citado num livro de Viktor Frankl, Ph.D. que eu estava estudando enquanto ainda estava na faculdade.

Ainda não formado em psicologia e filosofia eu lia Frankl para um trabalho voluntário sobre os existencialistas e naquele livro eu descobri coisas impressionantes e sábias, frases que ajudavam Frankl a esclarecer o quanto enxergamos pouco em tudo aquilo que vemos.  Frankl dizia que; “Os olhos que enxergam o mundo todo lá fora, não consegue enxergar-se a si mesmo” e nesta teia de mensagens eu comecei a perceber uma importante sintonia entre a abordagem ericksoniana e o existencialismo e nos últimos anos não tenho mais dúvidas sobre isto. Nos velhos tempos eu ouvia alunos e colegas dizerem que a abordagem deles se encaixavam no modo de pensar de Milton Erickson ou que o modo de pensar ericksoniano era igual ao deles. Que fenômeno estranho era esse! Não é tão simples assim, mas é um rapport natural. Poucos teriam que forçar um rapport porque ele nasceria espontaneamente porque ele vinha como uma dança, como um rio que corre sozinho.

Muitas vezes quase nos esquecemos de que a utilização é uma técnica. Ela se incorpora e se torna quase que um estilo de vida, um jeito de ser que nasce como que por um transe que se forma e flui no vão das palavras e entre as ideias.

Naqueles anos, em 1977, eu me sentava na cadeira isolada de numa lanchonete da faculdade enquanto lia Frankl, mas nos livros eu queria mesmo era saber mais sobre esse tal Milton Erickson. No Brasil não existiam livros sobre esse homem cujo universo de ideias cabia quase que em qualquer escola psicológica. Não entrava jamais em conflito com elas, porque esta era a natureza de Milton, que pensava com os nossos pensamentos, que via o mundo com os nossos olhos, que quando curava, curava com o doutor que dorme em cada um de nós e Erickson o utilizava.

Ele se aproximava como um jardineiro sutil que nem precisaria entender muito sobre os mistérios dos jardins e da flores, mas arremessava as sementes, e após uma sutileza quase que artesanal e de uma semeaduras (seeding) era apenas esperar o tempo passar, a vida atuar e a planta crescer, crescer como o transe cresce, o transe que cresce com som de sua voz, com o silêncio que divide as notas musicais e os acontecimentos, que é muito mais fruto dos sonhos de quem sonha do que das mágicas de Milton, ou de um bom curandeiro cuja maestria ele dizia ser sempre “do cliente”, que está em cada um de nós em tons diferentes, em mil tons, em mil tonalidades que variam em função da sua criatividade e do carisma e sabe-se mais o quê e que dele foi condensado como técnica.

Confesso que tenho um certo medo de falar de Milton Erickson porque ao falar de alguém corremos o risco de expressar, mais do que sabedoria, uma certa prepotência e uma arrogância. Preciso falar cuidadosamente para não correr o risco de avaliá-lo, pois para avaliarmos alguém temos que estar “acima dela”, e eu apenas sei admirá-lo e me encantar com as coisas que tenho aprendido com a sua grandeza. Por isto eu parei de me apresentar como treiner ou master em nada, especialmente sobre Milton pois ninguém o conhece em suas totais profundezas.

Eu tenho aprendido com a vida que todas as pessoas estão certas e são perfeitas sendo aquilo que são como o são. Que todos são perfeitos e são seres únicos e irrepetíveis no mundo, e nem sei porque, mas creio que o próprio Milton acreditava assim também e talvez isto estejam as raízes da técnica da utilização.

Milton está em todos nós!

Depois de conseguir o seu endereço com Gilbert Brenson Lazan um amigo e psicoterapeuta colombiano, coordenador do primeiro congresso sobre as psicoterapias sistêmicas realizadas naquele país em 1983, ele que havia estudado com Erickson, com Lankton e outros ericksoniano, fiz os primeiros contatos com a Fundação Erickson que começaram em 1983, ano em que Frankl veio ao Brasil para um o primeiro encontro brasileiro de Logoterapia. Em um número da Newsletter de 1986 foram mencionados trabalhos encaminhados por mim para a Milton Erickson Foundation, uma variedade de textos sobre paradoxos. Eram os textos do meu livro Manual de Psicoterapia Familiar que estava sendo lançado pela Editora Vozes, escrito em 1982, o primeiro a mencionar os trabalhos de Milton Erickson no Brasil.

Quase uma década depois, em finais de 1991 e começo de 1992, após fundação de uma editora para divulgar as psicoterapias ericksonianas, se estabeleceu um acordo para trazer Jeffrey Zeig, Ph.D. para que ele mesmo e com a maior legitimidade possível fizesse a divulgação da psicoterapia ericksoniana no Brasil.

Jeff Zeig fez mais de 40 apresentações, Rossi fez 14, Gilligan 5, Haley 5, Madanes (8), Betty-Alice (1), Tereza Robles (2), DeShazer (2), John Grinder (1), (1) Lankton (1) além de outros, até Abril de 2001, todas consideradas excelentes por seus participantes e que tiveram uma extrema importância histórica porque semearam idéias a uma só mão para os mais de 10 países de língua portuguesa. Foram organizados mais de 53 eventos com a finalidade de divulgar Erickson dentro das novas psicoterapias ao longo de 18 anos, desde 1983 até 1998, formando e informando mais 15 mil profissionais diretamente no campo ericksoniano, formando lideranças que agora são multiplicadores e ainda reconhecendo o pioneiros dentro da hipnose clássica no Brasil.

Presentemente, temos mais de mil livros de orientação ericksoniana vendidos em cinco diferentes editoras no país e fora dele, de tal forma que, devido a disponibilização de literatura, no ano 2001 quase todos os professionais brasileiros, portugueses, angolanos, moçambiquenhos e de todos os portuguese speaking countries já tinha lido ou ouvido falar de Milton Erickson.

No brasil, se desenvolveu uma consciência entre os maiores colaboradores da causa ericksoniana, aqueles que oferecem mais de si para este fenômeno que foi se tornando um movimento, ainda menos organizado do que precisaria sê-lo, mas que já é sério, um movimento onde os altruístas eram percebidos quando se perguntavam e ainda se perguntam sobre a seguinte questão; “o que mais poderíamos oferecer ao movimento ericksoniano, ao invés de nos perguntarmos sobre o que o movimento ericksoniano poderia nos oferecer, ou o que poderíamos obter dele?”.

Quanto a mim e especialmente à Cidinha, minha esposa e colaboradora, fomos apenas alguns dentre os pioneiros e nitidamente os iniciadores. Nos reconhecemos entre eles, conscientes de que os pioneiros são aqueles que chegam lá primeiro, tanto nos acertos como nos erros. Os pioneiros são aqueles que erram pelos demais e se risca por todos. Aos continuadores e os que chegam depois, fica a herança inclusive dos erros e agora saberão como fazer melhor.

Eles acertarão por nós todos os acertos que nós não tivemos tempo acertar. Muitos acertos não foram possíveis aos que vieram antes. Os continuadores poderão agir melhor, fazendo mais e errando menos, acertando mais e corrigindo a sua rota, poupando o stress inevitável pelo qual tivemos que passar, perdas irrecuperáveis e ganhos inesquecíveis porque a vida queria assim e não de outra forma!

Isto nos faz lembrar de uma belíssima história que a amiga Zerka Moreno, uma psicodramatista, alguém que eu às vezes trouxe para workshops e conferências por este país e que certa vez me contou que:

“Era uma vez dois homens encantados com o brilho da Lua. Ambos queriam a Lua só para si e começaram a se desentenderem e um dizia para o outro. “Eu quero a Lua com todo o seu brilho” e justificava com as suas razões para o prazer de possuir a Lua brilhante somente para si.

O outro, da mesma forma, continuava irredutível e dizia; “A Lua é minha porque sou eu que a mereço e a amo muito mais do que você.

Num dado momento um deles furioso saiu dizendo; - Sabem de uma coisa? Eu estou indo embora e estou levando comigo a Lua com todo o seu brilho e sem olhar para traz se foi feliz porque ela o acompanhava pelo seus caminhos e por todos os lugares por onde ele andava.[1]

Então o outro adormeceu enquanto se derretia de tristeza, mas eis que acordou no meio da madrugada, olhou para o céu e lá estava Lua, brilhando, mais linda do que nunca! Aquele homem foi tomado pelo encanto e pelo brilho contagiante da sua luz e disse para si mesmo. A lua resolveu ficar! Ela é minha! Somente minha!

...E assim cada um, no seu mundo achava que a Lua era somente dele, mas a lua, a sábia lua, das alturas percebia que ela estava com todos e tinha certeza de uma coisa; “o seu brilho estará em cada um de nós e continuará brilhando através de nós, para sempre.”

Um dos meus professores mais queridos, Salvador Minuchin, um terapeuta familiar, me disse enquanto descíamos para Santos nas vésperas de um workshop que eu organizei para ele “que são os ângulos da nossa forma de olhar que nos ajudam a ver assim. Mas e o que importa? O homem vai com o seu cachorro caminhando com a tarde e acredita que o cachorro é seu! Nós temos a mania de pensar que os sábios e as suas sabedorias são nossos e nos pertencem. Mas o cachorro, vendo a partir do seu mundo, também acredita que o homem é dele. E que mal haveria nisto? Nenhum!”

A descida para Santos durou mais de três horas e meia e foram as piores horas de transito mais encantadoras da minha vida numa tarde chuvosa entre o Aeroporto de Cumbica e a baixada santista.

Voltando ao ponto de partida: - A vida é assim. Milton Erickson está em cada um de nós e nós estamos em cada novo Milton Erickson que nasce, reciclado, novo, completamente original e novo, em cada novo discípulo que se encanta e surge todos os dias por todos os cantos do mundo, e assim como eu, segue fazendo o seu possível.

José Carlos Vitor Gomes, Psic.
(19) 99191-5685
jcvitor@uol.com.br

[1] Dedico este artigo à memória da Cidinha que se foi em agosto de 1997 e com isto foram também os nossos projetos. Peço desculpas à ela e a minha família, aos amigos, professores e clientes, a todos que foram prejudicados com o final das atividades na ocasião. Todos os nossos sentimentos!

 

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