O efeito do terror em nossas vidas

Esta semana, nós os adultos, olhamos com tristeza o pânico na face das crianças e tentamos fazer o nosso melhor para explicar para elas o sentido do sem sentido.

Como justificar o injustificável? Como explicar o inexplicável e dar um sentido para o que não tem sentido, e mais: Qual é o sentido da vida? Se a vida se perde assim tão facilmente e vale tão pouco para aqueles que vivem do ódio.

Em Paris, nós nos reconhecemos neste espanto em todas e em cada uma das faces petrificadas pela dor. Nós já conhecemos isto! Já vimos isto antes em New York, no onze de setembro que derrubou as Torres Gêmeas, em Oklahoma, em Washington, nos aviões abatidos na Rússia e o Egito, no atentado à mesquita a Argentina, nos assassinatos das vítimas vestidas em cor laranja que representam cada um de nós.

Em cada crianças que nasce o mundo recomeça, recomeça “com” ela e a cada pessoa que morre, o mundo recomeça, mas “sem” ela e assim resistimos e tentamos caminhar para a frente “sem” aqueles que caem pelo caminho e ficam para trás.

Estas coisas que banalizam a morte são familiares para todos nós e por todos os lugares as crianças “parecem” serenas porque não conseguem compreender como nós, os humanos, nos permitimos agir assim sem quase nenhuma indignação, porque já nos acostumamos com isto com o que não deveríamos nos acostumarmos nunca.

Cada criança que nasce foi convidada por nós para este planeta louco, somos anfitriões que matam pelo simples prazer de matar e as recebe os seus hospedes oferecendo drogas e armas para que eles se destruam e destruam o planeta para o qual vieram, e por nós foram convidados.

De fato, existem coisas que apenas podemos aceitar com todo o sofrimento que elas representam, mas é impossível compreender e não saberíamos como explica-las para nós mesmos e muito menos para os nossos filhos e para as crianças.

Posto Antoine Leiris, o homem perdeu a sua esposa no atentado e ficou com um filho bebe que agora criará sozinho, fala com toda propriedade e resistência, sobre ela que era o amor da sua vida, na poderosa carta que fez aos assassinos:

“Vocês nunca terão o meu ódio!

Na noite de sexta-feira vocês roubaram a vida de uma pessoa excepcional, o amor da minha vida, a mãe do meu filho, mas vocês não terão o meu ódio. Não sei quem vocês são e não quero sabê-lo. São almas mortas. Se esse Deus pelo qual vocês matam cegamente os fez à sua imagem, cada bala no corpo da minha mulher foi uma ferida no seu coração.
Por isso, não vos darei a satisfação de odiá-los. Vocês procuraram-no, mas responder ao ódio com raiva seria ceder à mesma ignorância que vos fez ser quem são. Querem que eu tenha medo, que olhe para os meus concidadãos com um olhar desconfiado, que eu sacrifique a minha liberdade pela segurança. Perderam. O mesmo jogador continua a jogar.

Eu a vi esta manhã. Finalmente, depois de noites e dias de espera. Ela ainda estava tão bela como quando partiu na noite de sexta-feira, tão bela como quando me apaixonei perdidamente por ela há mais de 12 anos. Claro que estou devastado pela dor, concedo-vos esta pequena vitória, mas será por uma curta duração. Eu sei que ela nos vai acompanhar a cada dia e vamos encontrar no paraíso das almas livres a que nunca terão acesso.

Nós dois, eu e o meu filho, vamos ser mais fortes do que todos os exércitos do mundo. Eu não vou gastar mais tempo falando com vocês, eu quero me juntar a Melvil que agora se acorda da sua sesta. Ele só tem 17 meses, vai comer como todos os dias, vamos brincar como fazemos todos os dias e, durante toda a sua vida, este rapaz vai afrontá-los sendo livre e feliz. Porque não, vocês nunca terão o ódio dele."

Esta carta nos lembra as palavras de Viktor Frankl, o psiquiatra que enfrentou a frieza e a crueldade dos campos de concentração, inclusive Auschwitz, onde e perdeu sua esposa e sua família, e os amores de sua vida também se foram nos campos de morte.

Que não nos esqueçamos jamais que “todas as coisas podem ser tiradas da vida de uma pessoa”, escreveu Frankl, “mas ficará sempre a nossa liberdade para agir e nos posicionarmos diante do absurdo” e como disse Antoine, o homem que perdeu a sua mulher no atentado de Paris: “Nós somos dois. Meu filho e eu, mas somos mais fortes do que todos os exércitos do mundo...”

A procura de um sentido para isto nos deixam em silêncio, até que nos voltemos para dentro de nós e nos nossos corações não nos perguntamos mais qual é o sentido da vida, ao contrário, é a vida que pede uma resposta e nos questiona; qual é o sentido de cada um de nós e para que estamos aqui?

José Carlos Vitor Gomes, Psic.
(19) 99191-5685

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