O direito de ser idiota

A arte paradoxal de ser vítima

Tanto se diz que somos livres que eu achei que poderia escolher o meu destino. Passei então a me questionar sobre o direito de escolher ser idiota e então me disseram que nem isto eu poderia ser, porque se escolho ser vítima é porque não posso mais sê-lo, porque, neste caso trata-se de uma escolha.

Eu poderia ser meu capataz, o meu Herodes, um sadomasoquista que ama sofrer, adora os cravos que me prendem à cruz que escolho todos os dias sob medida. Posso andar com dinheiro na rua para ser assaltado. Posso apreciar as armas apontadas contra mim e neste caso eu poderia ser a minha vítima autopiedosa, lamentosa e lacrimejante.

Eu poderia postar as minhas viagens à Disney, ao Chile ou para a Europa, ostentar o meu carro novo para instigar os assaltantes, a minha casa e as minhas joias, o meu novo namorado ou namorada e assim eu provocaria a inveja dos amigos e inimigos.

Eu preciso ter a ilusão de que eles foram numa sessão de vodu e compraram as influências das entidades e neste sentido a feitiçaria que se despejou sobre mim, se é que isto é possível, foi gerada por mim mesmo.

A minha criança interior precisa ostentar o seu brinquedo novo, a minha felicidade artificial ou não, mas precisa das fotos típicas das propagandas de margarina, do sorriso que pode ser mais um (X) do que uma autêntica alegria e assim por diante, para que assim eu assegure toda a possibilidade de eleger os “olhos gordos ou magros” para que possam secar a minha felicidade e inverter a minha alegria, mas afinal, ninguém é de ferro e eu tenho todo direito de ser infeliz.

As pessoas poderosas, materialmente ricas, sábias e realmente bem-sucedidas não precisariam destas coisas, mas um pequeno burguês não perderia a chance de expor no Facebook toda a sua intimidade, mas isto também é um direito, o direito de ser ridículo, o direito de exibir, o direito de fazer inveja aos amigos e vizinhos e de ser às vezes, ao contrário, motivo de chacota.

Eu bem poderia não ter votado nesse ou naquele candidato, mas eu sou livre para escolher o pior governo possível e não abro mão desse privilégio, se acerto e sou sensato, eu perco a minha oportunidade de sofrer e manifestar publicamente a minha incapacidade de fazer escolhas certas, ou que somente é certa por ser errada.

Na verdade, eu posso errar. Eu devo errar. Errar faz parte da minha natureza e do meu crescimento. Então, eu faço de conta que não vejo o risco e escolho na medida certa aquilo que eu preciso escolher para sofrer na medida o que eu preciso sofrer, afinal, é mais fácil sofrer do que ser feliz e a felicidade foi, tem sido e será o oposto de tudo o que eu tenho escolhido.

Na política, a palavra candidato vem do Latim e se refere a um ser “cândido”, límpido, digno das minhas escolhas, algo que tenha a candura das nuvens e dos anjos e a sua imagem é apresentada cândida para iludir as nossas escolhas.

Eu faço de conta que não percebo que alguns são melhores do que os outros e com o meu preconceito de cor e de tudo, chego a imaginar que o meu candidato, alvo e cândido tem alguma chance e então faço a minha escolha.

Os amigos do Facebook, (inclusive eu), tem a ilusão de uma platéia que nos admira e bate palmas, mas nem sempre isto acontece e a maior parte dela é imaginária, é indiferente e mais nos vaiam do que aplaudem e esta é também uma das teses de Zygmunt Bauman dos amores líquidos e voláteis da nova era.

Você sabe por que você se desilude? A resposta é simples: Você se desilude porque se ilude. É obvio!

Nos relacionamentos eu opto por quem me faz sofrer na medida certa segundo as minhas necessidades espirituais e existenciais. Quanto pior melhor! Assim eu me passo por vítima e deixo a impressão de que sou bom e de que o outro é ruim.

Na verdade, tudo é tão relativo que eu nem poderia afirmar com certeza quem é bom, quem é ruim, quem é melhor e quem é pior, porque todos estes posicionamentos são “julgamentos” e mesmo quando digo que o outro é “muito bom”, esta consideração é um julgamento e eu não poderia avaliar e interpretar sem julgar, e julgando, eu me coloco acima, numa posição de superioridade em relação àquele que eu julgo.

Quando julgo, eu me coloco acima (faço um diagnóstico) e com uma grandeza que eu mesmo me atribuo me faço arrogante, megalomaníaco e isto é apenas mais uma das minhas formas de ser idiota. É por tudo isto que eu, que às vezes perco a oportunidade de ficar com a boca fechada, peço desculpas por este artigo, que são três páginas de um livro escrito há muitos anos e que por sorte eu ainda não o publiquei.

É por estas coisas que o matemático austríaco Kurt Godel (1906-1978), o criador do Teorema da Incompletude, achava que a linguagem humana é simplesmente impossível. Ela não comunica quase nada e inconscientemente acaba expressando o oposto do que ela gostaria de expressar, e tentando escrever um livro sobre “o direito de ser idiota”, percebo claramente que o primeiro da lista só poderia ser eu mesmo.

José Carlos Vitor Gomes, Psic.
(19) 99191-5685

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