Estudo: Psicologia humanista no Brasil

William Barbosa Gomes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Adriano Furtado Holanda, da Universidade de Brasília e Gustavo Gauer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, desenvolveram um estudo interessantíssimo sobre a psicologia humanista no Brasil. Tive o privilégio de ser citado pelo documento produzido pelo trio e, com a autorização dos autores, recomendo a leitura da íntegra do material, que você pode acessar clicando aqui.

Leia um trecho do material:

A psicologia estabeleceu-se como disciplina independente elegendo como objeto de estudo a experiência consciente. Para tanto, substituiu a introspecção especulativa pela introspecção científica, um método desenvolvido para o estudar o conteúdo da experiência imediata. A psicologia da consciência, como proposta por Wilhelm Wundt (1832-1920) e seu discípulo Edward B. Titchener (1867-1927), não obteve o sucesso esperado, desaparecendo nas primeiras décadas do século XX. A teoria dos conteúdos da consciência foi sucedida pelo funcionalismo, que procurou integrar técnicas introspectivas com técnicas extrospectivas. No entanto, a difusão da psicanálise e do behaviorismo deslocou o interesse, respectivamente, para o inconsciente e para a observação direta do comportamento. Na perspectiva psicanalítica, a consciência seria abordada indiretamente através das explorações do inconsciente. Na perspectiva behaviorista, o estudo da consciência não se mostrava factível ou relevante para a Psicologia (Gomes, 1983).

Na década de 1930, duas tendências começaram a emergir na Psicologia internacional. De um lado, a exploração científica da experiência consciente reaparecia por influência da Psicologia Gestáltica. Como exemplos podem ser citados: a teoria de aprendizagem de Clark Hull (1884-1952), que introduzia o conceito de variável interveniente ou intraorganísmica na sequência estímulo-resposta; a teoria cognitiva de campo ou behaviorismo intencional de Edward C. Tolman (1886-1959), que introduzia o conceito de mapas cognitivos; e a teoria neurofisiológica de Karl S. Lashley (1890-1958), para quem a linguagem representava as funções integrativas do córtex cerebral, alcançando o seu mais alto desenvolvimento nos processos do pensamento humano. Esses teóricos são hoje considerados como precursores do movimento cognitivo, um movimento que ganhou força nas últimas duas décadas do século XX (Kristensen, Almeida & Gomes, 2001).

De outro lado, o aparecimento dos estudos da personalidade, como um esforço integrativo diante da dispersão e fragmentação das pesquisas em processos básicos, recuperou a centralidade da experiência consciente para a Psicologia. A tendência foi representada pelos trabalhos de Eduard Spranger (1882-1963) e William Stern (1871-1938) na Alemanha; e de Gordon Allport (1897-1967), Abraham Maslow (1908-1970), Rollo May (1909-1994), Charlotte Bühler (1893-1974), e Carl Rogers (1902-1987) nos EUA. Esses autores, de diferentes maneiras, mas com vários pontos convergentes, defendiam uma psicologia compreensiva capaz de considerar o ser humano em sua singularidade e totalidade. A repercussão destas idéias nos EUA deu origem a uma nova orientação no campo psicológico que se tornou conhecida como Terceira Força ou Psicologia Humanista. Em suma, os esforços dos experimentalistas na retomada das questões cognitivas, e dos compreensivistas na retomada das questões fenomenais e vivenciais trouxeram de volta o lugar da consciência na pesquisa e na prática psicológica.

Em um estudo histórico sobre as psicologias fenomenológicas, existenciais e humanistas, Misiak e Sexton (1973) reconheceram a dificuldade para definir a Psicologia Humanista de modo conclusivo e satisfatório. Em primeiro lugar, pela ausência de uma teoria humanista de Psicologia, e em segundo lugar pela própria história do humanismo. O pensador católico Alceu Amoroso Lima (1893-1983), ao apresentar o existencialismo para os leitores brasileiros em 1951, distinguiu três variedades de humanismo: marxista, existencialista, e personalista. No humanismo marxista, de inspiração hegeliana, o homem é objeto, produto da evolução da matéria e da história da sociedade. O humanismo existencialista, de orientação sartreana, é um protesto contra o marxista: o homem é um projeto, vive sem saber de onde vem e para onde vai. Não dependendo de Deus e nem da sociedade, é soberano e livre, em escolhas e situações (angústia, náusea, etc.). O humanismo cristão, ou personalista, preferido por Lima, tomaria o homem como sujeito, ápice da criação de Deus e centro do universo, e infinito em possibilidades (Lima, 1951). Numa perspectiva histórica e sem preferências filosóficas ou religiosas, o termo humanismo pode ser associado a cinco grandes momentos das ideias psicológicas, podendo ser denominados de humanismo clássico, humanismo romântico, humanismo individual, humanismo social, e humanismo crítico.

O humanismo ideal ou clássico foi um movimento ou uma corrente de pensamento associada ao início da idade moderna e ao fim do dogmatismo medieval. Caracterizou-se pela defesa da individualidade, da singularidade, e da expressividade irrestrita. O humanismo clássico estimulou a busca por liberdade e independência, despertou a curiosidade por novos conhecimentos, e sistematizou métodos de pesquisa para a confirmação da verdade. Ele esteve na gênese das transformações políticas e econômicas que mudaram a face do mundo europeu. Seu correlato político e social foi o liberalismo.

O humanismo romântico foi um movimento filosófico, jurídico, político, econômico e artístico que se caracterizou pela defesa da expressão plena dos sentimentos, pela afirmação irrestrita da liberdade, e pela defesa da individualidade. Neste humanismo, o pensamento humano não era entendido nem como produto da natureza nem da razão. Era entendido como elaboração livre e poética da imaginação, movido por determinações irracionais. Para o humanismo romântico, o primado da intuição e do sentimento está à frente da razão e da análise. Neste sentido, o irracional atrai mais que o racional, o imprevisível mais que o previsível, o multiforme mais que o uniforme, o trágico mais que o cômico, o oculto mais que o presente, o implícito mais que o explícito, o sublime mais que o belo, e o interno mais que o externo. Nesta concepção, a mentalidade era uma injunção de forças históricas. O movimento alcançou seu auge entre os anos de 1780 e 1830, e seu correlato político foi a revolução francesa. 

O humanismo individual recupera valores como independência, hedonismo, dissidência, tolerância, permissividade e auto-expressão. Esses valores aparecem claramente na teoria de Maslow (1968), ao defender o valor da pessoa não pela sua produção mas pelo seu potencial. Emergem ainda na teoria de Rogers (1961/1970) ao defender a confiança irrestrita na pessoa; e também na oração da Gestalt (Royce & Mos, 1981), ao recomendar que cada um cuide de sua vida e não da vida do outro e que cada um viva para sua expectativa e não para a expectativa do outro. A regra estava na ação movida pelo "aqui e agora". O humanismo individual alcançou seu auge na década de 1960, acarretando mudanças sociais e políticas no sentido da liberdade e da igualdade. Nas escolas, as mudanças reduziram a autoridade dos professores e incrementaram a liberdade de expressão e da convivência social. Na psicologia, o movimento deu grande acolhida a propostas de terapias de grupo que subvertiam valores tradicionais - a boa educação se deixa em casa - e liberavam a expressão e o toque corporal. Na política, o humanismo individual defendeu a democracia e deu voz às minorias. Na economia, o humanismo individual, embora implícito nos movimentos da contracultura, é uma consequência dos ciclos de prosperidade capitalista.

O humanismo social caracteriza-se pela revolta contra as injustiças, as desigualdades, e as diferenças de classes. Apresenta-se na luta contra a alienação dos processos dominadores das forças econômicas e históricas, e centraliza sua intervenção na tomada de consciência dos diferentes modos e possibilidades de inserção e conquista social. Os correlatos políticos deste humanismo foram as revoluções populares de inspiração marxista. Na Psicologia, o movimento se fez presente pela intensa crítica e participação política, assim como pela proposição de uma psicologia sócio-histórica. A grande força deste movimento ocorreu na década de 1960 em contraposição ao expansionismo do capitalismo. Na economia, o humanismo social levou à estagnação dos meios de produção nos países nos quais chegou ao poder através de atos revolucionários.
O humanismo crítico é a negação de todos os humanismos e de suas formulações fantasiosas e utópicas. É uma redefinição da relação do homem consigo mesmo e do homem com o mundo. Essa nova relação está presente no conceito do ato de existir em Heidegger, na busca da pura consciência em Sartre, ou no reconhecimento da inextrincável relação com o mundo, em Merleau-Ponty. O humanismo crítico compartilha com os demais humanismos a exaltação do indivíduo como criador de seus próprios valores e sentidos, mas tende a se concentrar em aspectos técnicos da filosofia e do método científico. Neste sentido, oferece uma reformulação ontológica da natureza ou condição humana, procurando explicar a possibilidade de qualquer experiência consciente através das estruturas fundamentais da própria experiência consciente. É, portanto, uma abordagem fundamentalmente técnica e metodológica, isto é, um método para pensar. Um correlato do humanismo crítico foi o movimento estruturalista e pós-estruturalista, liderado por pensadores franceses.

As diferentes faces do movimento humanista dificultam qualquer proposição de definição de humanismo e muito mais de psicologia humanista. Shaffer (1978) resumiu as principais convergências da psicologia humanista em cinco pontos: 1) tomam como ponto de partida a experiência consciente, alinhando-se com a fenomenologia e o existencialismo; 2) abordam o ser humano em sua totalidade e integridade; 3) entendem a condição humana como limitada pela imbricação eu-corpo/outro/mundo, mas nem por isso destituída de liberdade e autonomia; 4) trabalham com uma metodologia antirreducionista; e 5) assumem uma ética fundamentada na abertura para a experiência, na possibilidade de escolha, e na exequibilidade da redefinição do sentido de vida.

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