Educação unissex

Conversando com um amigo falávamos sobre o estranho momento em que vivemos, uma época em que, por exemplo, a identidade da psiquê feminina e masculina estão em decadência e talvez tenha se derretido. Na verdade, foram-se os tempos em que existiam “homens e mulheres” claramente bem definidos, hoje eles estão cada vez mais parecidos, uma vez que temos recebido um tratamento e uma educação está cada vez mais "unissex".

A educação de meninos e meninas, está cada vez mais indiferenciada parece e o mundo precisa tratá-los todos como se fossem iguais, na verdade, tem ocorrido uma espécie de “modelagem social” espontânea, uma “social shaping” que faz do outro uma escultura à imagem e semelhança de todos, como se fossemos feitos numa linha de produção, onde todos são apenas e tão somente números e onde todos são tratados como “iguais” e isto é o que sonha a nossa cultura de massa.

Oxalá não nos arrependamos, como nos arrependemos de alguns radicalismos dos anos 1960 quando a mãe era “culpada por tudo” de mal que acontecia com a criança, quando a colocação de limites era praticamente proibida, a criança era um reizinho que fazia tudo o que bem queria, quando o uso das drogas da época, como o LSD etc., eram consideradas um charme, um símbolo de status e de cultura. As pessoas modernas usavam LSD. Woodstock ficou mais famoso pelo uso de drogas e o amor livre, do que pela arte musical em si, elas que eram o que havia de melhor.

Vivemos assim a contracultura e ela ousou brincar com as drogas psicoativas, e pensou em “libertar à força” todas as pessoas, de todas as formas e de todos os gêneros, ousou sonhar inclusive com a “libertação da mulher” e nem se deu conta de que, quem quer que ousasse “dar” a liberdade a alguém, esta libertação continuaria nas mãos de quem a deu.

No Brasil, o General Figueiredo dizia que agora, “A democracia tem que vir na marra e se alguém não aceita-la, eu prende e arrebento”. Na França do General Charles de Gaulle dizia igualmente que “Era proibido proibir”, como se os generais tivessem condições de “dar” ou tirar a liberdade a quem quer que fosse. Porém, desde de antes o mundo tinha mania de “dar” ou tirar a liberdade, de cassar ou não cassar, e nesta viagem “deu” inclusive a liberdade aos escravos.

É impressionante a alienação daqueles que mal conseguiam perceber que é impossível “doar” a liberdade. Ninguém poderia dar a liberdade sem continuar sendo o “todo poderoso” que deu esta tal liberdade e sem continuar sendo o carcereiro das almas.

A liberdade foi uma conquista feminina e uma vitória histórica de toda a humanidade e todos cresceram com isto. Aqueles anos foram paradoxais demais para as nossas cabeças. Tudo o que fazíamos era reação à alguma coisa, ao controle das massas, à ditadura e aos anos de chumbo, o que significa que a nossa reação foi determinada por governos autoritários e ao que chamamos contracultura.

No entanto, em que pese a consciência da liberdade, a natureza humana tem alguns determinismos biológicos ativos e nela o homem segue sendo o caçador e a mulher é a caça. Não é caça no sentido passivo do termo, porque ela é ativa em seu papel feminino, por exemplo, de sedução, provocando do homem com a sua beleza, enquanto este precisa ser o caçador – ou precisa ao menos desta ilusão - para que seja possível a atração e o sexo.

Em termos práticos, quando a caça investe contra o caçador – e a mulher dá encima do homem - a sexualidade adoece e se faz impossível. Normalmente o cachorro faz xixi no poste, mas agora é o poste que faz xixi no cachorro. E este fenômeno facilmente notado na clínica é um ataque à sexualidade dos casais héteros.

O homem se assusta quando a mulher inverte as coisas e lhe “propõe” sexo e ficando temeroso se afasta, assim, numa relação hétero a sexualidade somente funciona com papéis bem definidos, quando o homem fica em seu papel de caçador e a mulher em seu papel de caça. É óbvio que muitos não concordam com isto e continuam achando que homens e mulheres são iguais. Eu também gostaria que fossem iguais, mas a vida em si, não evolui como sonham as políticas, como desejam os feminismos artificiais e o machismo.

Na sociedade unissex, as meninas devem ser meninos e meninos não devem rejeitar ser meninas. As roupas são unissex. A aparência é unissex e pensar diferente disto é perigoso e considerado preconceito. Pode se até pensar, mas não é permitido revelar seus reais pensamentos, porque a moda é “ser”, não importa “o que”, não importa se é “ser masculino ou feminino”, mesmo porque também a sexualidade se tornou líquida, ou quem sabe se até volátil, mas de verdade ela se acabou.

Não existe mais sexualidade pura como se imaginava antes. Não existem mais papéis e na medida em que o aparelho social se refina e a educação se torna mais sofisticada, mais a educação se torna traumática e este trauma deseduca, mas como ela não pode mais ser tão frustrante como dizia Freud, o mais fácil ocorre por si mesmo e a educação se tornar impossível.

Não existe nada de novo nisto, pois, para Freud, educar, governar e analisar são tarefas impossíveis. É impossível ser analista, governo e educador sem causar enormes danos às pessoas analisadas, governadas e educadas. A educação molda o educando para viver uma realidade que não existe, e como a educação não torna as pessoas iguais ou igualmente educadas, elas são formatadas para adaptação ou para o confronto e ambas as realidades são constrangedoras e torna cada um de nós “another brick in the wall”, mais um tijolo na construção desta sociedade competitiva, confrontadora, ou de seres adaptados, e como disse Krishnamurti, “não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente.

Por tudo isto é mais fácil tentar fabricar seres em série, todos sob medida como deseja uma educação igualitarista como se todos tivessem que se submeter à velha Cama de Procusto do mito grego, onde todos os viajantes tinham que ter o tamanho da cama, se eram grande demais, ele serrava as suas pernas, se eram pequenos, era esticados até ficarem do tamanho da cama.

Procusto significa “o estirador”, foi o apelido dado a Damastes que era personagem da mitologia grega, ele que vivia perto da estrada de Eleusis e costumava atrair viajantes solitários para a sua pousada, oferecendo-lhes abrigo para passarem a noite. Ele tinha dois leitos de ferro, um menor e o outro, e destinava à cama conforme a altura do visitante.

Depois que a vítima adormecia, Procusto a dominava e tratava de adequar o corpo da sua vítima às medidas do leito. Se ele fosse alto e as pernas fossem maiores que a cama, ele os amputava com um machado; se era baixo e tinha espaço de folga, ele esticava os membros com cordas e roldanas até que ficasse do tamanho da mesma.

Originalmente Damastes adquiriu o nome de Procusto (“o Estirador”) pelo estranho castigo que aplicava a suas vítimas, mas um dia Teseu acabou com a obsessão homicida de Procusto, obrigando-o a se deitar no próprio leito, e cortou todas as partes do corpo de Procusto que sobraram para fora da cama.

Quantas vezes não forçamos os outros a entrarem nas nossas medidas? Construímos códigos e leis e os impomos os outros. Quantos psicólogos não encaixam os clientes às suas teorias? Quantos casais não forçam uns aos outros a viverem do seu jeito, a determinarem o certo e o errado baseados talvez em estatísticas distorcidas como aquelas do pescador.

Daquele pescador que chegou a um belíssimo rio que tinha todos os peixes, mas jogou um anzol de lambaris com iscas para lambaris e ao final do dia chegou à estranha conclusão de que; “Naquele rio só existiam lambaris” bem ao estilo dos educadores unissex, destes que agem como Procusto e querem que todos sejam iguais, como se as pessoas não fossem únicas e exclusivas no mundo.

 

José Carlos Vitor Gomes, 
psicólogo.

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