É dando que se recebe

- José Carlos Vitor Gomes -

Escrevo inspirado no artigo de Alex Batthyány sobre qual é o sentido da vida, eu que tenho percebido que este tão procurado sentido é como a luz, não importa de onde ela venha, se é da modesta lamparina, sem vem de um lustre de ouro e diamantes, o que importa é que ilumine.

Segundo o mestre, a Logoterapia de Viktor Frankl; o criador da escola psicológica que, de forma pioneira agrega ao panorama da Psicologia e da Psicoterapia a questão do sentido da vida, a vida é plena de sentido, não apenas porque existe um sentido pragmático nela, mas porque cada momento está sempre potencialmente “fecundado” e pleno de promessas de sentido.

Cada situação da vida de cada um, por simples que seja, traz em si uma variedade de novas possibilidades como se fosse alguém a nos questionar: E agora? Qual será o próximo passo? E a vida de novo nos pergunta, e então: o que você vai fazer de mim? Qual será a sua nova escolha?

A vida vive a nos perguntar o que faremos dela, como se fosse uma pedra que está aí para ser esculpida e pergunta ao seu escultor: E então, o que você vai esculpir a partir de mim? Assim, a vida é como a argila, que nas mãos do artista é um milagre que pode se tornar quase qualquer coisa.

Se formos capazes de compreender bem esta questão, descobriremos que o futuro está aberto, que tudo depende ainda que parcialmente de nós e de qual o destino vamos dar para esta nova situação. Mesmo quando a situação em si parece imutável e quando tudo parece inegociável, pelos menos a reação diante desta situação será completamente nossa, ou seja, podemos lidar com cada nova situação que, em tese, não poderia ser mudada; e como vemos, como reagirmos diante delas está em nossas mãos e podemos efetivamente mudar ainda que seja o nosso olhar a nossa apreciação.

Você pode ser incapaz de mudar o mundo; mas pode mudar a sua atitude diante dele e pode mudar o seu olhar pessoal em face dele, e isto não pouca coisa, aliás, isto faz toda diferença. Mas, ao invés de nos declinarmos caindo no desânimo, esta reserva de liberdade e de responsabilidade nos coloca novamente de pé – porque, quase que paradoxalmente, o verdadeiro tesouro da existência é a liberdade de fazer do nosso jeito, e contrariamente aos recursos materiais, os recursos existenciais são quase sempre infinitos e são ilimitados.

Para termos uma ideia sobre as implicações disto na vida cotidiana, basta ouvir o que a existência nos diz sobre nós, sobre si mesma, sobre o que realmente tem valor neste mundo — e o que é gratuidade para todos nós! Se em termos materiais, quanto mais doarmos, menos teremos, em um nível espiritual ou existencial, quanto mais doarmos ou dividirmos, mais teremos. Quando mais damos coisas como o dinheiro, etc., depois de algum tempo, inevitavelmente ele se acaba.

Mas, por exemplo, quando cuidamos ou damos atenção, amor e afeição, por exemplo, quanto mais semeamos alegria, elogio das suas qualidades ou sorriso às pessoas, mais colhemos de volta da mesma alegria e dos mesmos sorrisos, quando damos as mãos recebemos de volta as mãos do outro, quando damos um abraço o recebemos volta e se emitimos palavras de conforto e ânimo, teremos uma criatura mais feliz à nossa frente, e até na intimidade; se dá, mais se recebe e assim por diante.

O problema é que controlamos demais as nossas reações e nem sempre percebemos até que ponto aquilo que fazemos retorna ou não para nós, assim saberíamos o quanto fazemos a diferença por onde passamos — e que nalgum lugar do mundo, alguém estará sendo afetado por aquilo que somos ou fazemos.

Se você acompanhar a jornada dos efeitos de um ato de bondade, você se surpreenderá vendo até onde ele vai e até que nível ele pode alcançar as pessoas e construir retribuições. Se focarmos no sentido do que somos e fazemos à cada instante, veremos que, na verdade, ao agir afetamos imensamente nós mesmos, e assim nos reconectamos com os recursos que buscamos e pelos quais tanto nos ansiamos.

Um outro ponto igualmente importante é o fato de que este sentido que flui na vida cotidiana se abre para todos e está disponível para cada um de nós. Isto não chega a ser uma tendência inata da existência de nos conduzir para a saúde, para a felicidade, ou de algo que nos conduza para usufruir destes recursos. A existência não é usurpadora e nem seletiva, mas nos oferta a possibilidade do encontro de um sentido.

Aqui está um pequeno exemplo relatado por Alex e traz uma profunda lição relacionada com a afirmação de Frankl de que o sentido pode ser encontrado em todos os lugares até o último suspiro. Há alguns meses atrás ele visitava um hospício em Moscou. Em um daqueles quartos um pouco maiores, estavam dois homens idosos em estado terminal de câncer no pâncreas. Quando se aproximou, viu que um estava consolando o outro, enquanto o outro ouvia profunda e atentamente. É difícil encontrar palavras para descrever a profundidade daquela troca tão humana, a sua densidade, a simplicidade e a beleza daquele encontro, mas isto nos faz lembrar o fato de que mesmo nestas situações a promessa de um sentido potencial ali estava: e nunca é tarde demais para que ele se revele.

Uma metáfora que ouvi muitos anos atrás em uma conferência sobre Logoterapia, disse ele, ajudou à ele e a muitos na compreensão das questões da ajuda, para que fiquemos atentos ao sentido de cada momento, é a metáfora da vela — da cera que se transforma em luz. A nossa vida, transitória como é, pode se transformar em luz, mas diferentemente da vela, esta transformação não acontece automaticamente.

A contrário, temos a Liberdade de escolher nos tornarmos luz ou não, ou seja, podemos nos transformarmos e podemos não transformar as nossas vidas em luz. No entanto, se o fizermos, tornaremos a caminhada mais fácil para os outros e faremos com que a vida deles também brilhe sobre nós, e isto fará um imenso sentido para a vida de todos e viveremos o sentido que se revela à cada momento.

O sentido não é construído e nem é pragmático, ele está aí o tempo todo e em todas as coisas, e se revela como um fenômeno. Eu não dou um abraço “para receber de volta um abraço”, eu simplesmente abraço com toda graça e espontaneidade, e me dou conta de que é dando que se recebe!

José Carlos Vitor Gomes, Psic.
(19) 99191-5685

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