Crianças com pais problema

CRIANÇAS COM PAIS PROBLEMA

Como as brigas entre os pais afetam as crianças

José Carlos Vitor Gomes, Psic.

 

Todos os casais, até mesmo os que mais se amam, discutem de vez em quando. Não é este o problema! Por isto não tem sentido ficarmos assustados ou simplesmente evitarmos que as crianças presenciam as nossas discussões.

As brigas, o mal estar ou até mesmo a tranquilidade familiar, unge o sistema e transforma o clima do grupo familiar e o campo comunica aos membros da família o que está acontecendo entre eles e isto é feito automaticamente.

No momento de uma briga, o que é transmitido às crianças pequenas ou não, é uma profunda sensação de insegurança, de ameaça, de morte e de que tudo pode acabar em tragédia entre seus pais.

É claro que as discussões nervosas e mais confusas perturbam ainda mais e sinalizam para a existência de problemas, e precisariam estar dentro de certos limites. Mas não há como esconder ou enganar os filhos, fingindo que está tudo em ordem quando na verdade não está.

Os menores (com até 6 anos de idade aproximadamente e até mesmo os bebês que ainda não falam) ficam impressionadas e assustadas com as discussões em voz alta, porque em suas fantasias, elas imaginam que seus pais podem se matarem, se machucarem e que sua família pode se destruir.

Alguns preferem que seus pais se separem e têm um medo real de que eles se matem.

Comumente, as crianças com pais desequilibrados e brigões e que se mostram mais infantis do que eles e sentem que elas precisam ser pais dos seus pais. Elas têm dificuldades para crescer e irem embora de casa porque precisam inconscientemente ficar por perto para cuidarem dos seus pais para que eles não se destruam.

Isto é uma ordem invertida, uma situação onde as crianças se veem na obrigação de cuidar de quem deveria cuidar delas.

Elas frequentemente têm problemas de crescimento e de relacionamento porque não se permitem ir embora casa. Elas não se casam e se relacionam mal e isto é mais comum ainda se existem brigas com palavrões ou agressões ou quando eles destroem suas coisas.

As crianças geralmente acham tudo isto ridículo. Têm medo e, sobretudo têm pena dos seus pais.

Se um dos seus pais é alcoólatra, os filhos podem não apreciar nenhuma bebidas, embora mantenham outros padrões do alcoolismo por causa do fenômeno da codependência e assim elas podem ser mais inconstantes, obsessivas, bipolares e depressivas.

Normalmente estas crianças têm pesadelos na vida mais adulta, até que procurem fazer terapias e esta pode ser a sua forma inconsciente de curar as pessoas e o sistema, lidando com as dificuldades íntimas e as memórias de traumas, ou então seus problemas são simplesmente elaborados como neuroses ou psicoses.

Pouco nos adiantaria aqui recomendar que os casais e as pessoas adultas evitem conflitos diante de seus filhos, pois isto acontece exatamente por falta de controle. Como afirmamos antes, alguma coisa deveria ser feita para que eles evitassem os insultos, os palavrões, as agressões ou a perda do respeito entre si e para com os filhos.

Existe ainda a ilusão de que as agressões são “apenas entre eles”, o que não é verdade, pois as pessoas que presenciam agressões, especialmente as crianças, se sentem agredidas também. Os traumas que ficam são a ponta do iceberg das agressões mais profundas e inconscientes.

Na verdade, sistemicamente, tudo o que acontece para um, acontece para todos e se uma pessoa leva um puxão de olha, toda a família sente a dor. Se alguém morre, cada um morre um pouquinho e todos são atingidos por todas as coisas.

Quanto mais enferma é a família, mais simbiótica ela é e, segundo os psicanalistas argentinos Henrique Pichon & Revière, a família tem um inconsciente único e compartilhado por todos, e cada um sente o que todos sentem.

Os casais e as famílias normais estão cada vez mais interessadas em aprenderem a “brigar” sem brigarem, “discutir” sem discutirem, fazendo com que o tom de voz seja mais brando. No entanto, não há como agredir suavemente, matar docemente ou fazer com que uma agressão carinhosa seja menos dolorida, mas o amor que machuca e a fraternidade terrorífica são temas para outro artigo.

A educação para a agressividade e a intolerância é algo que os pais fazem e que a criança com pais problemas aprendem com sutileza. Educar para a falta de educação é a pior de todas as formas de educação e acontece o tempo todo, e, em tudo o que fazem quando estão perturbados.

Os cônjuges precisam ser estranhos para se amarem e as suas opiniões nem sempre coincidem. A fala conflituosa que leva às brigas pode ser uma forma de canalizar as suas frustrações, manifestar desagrado e a insatisfação para com o outro.

Um não briga necessariamente com o outro por estar errado, mas às vezes por desejar puni-lo ou até mesmo para se separar.

É possível conversar sem brigar e as discussões são necessárias para que o casal se afine, para criarem alinhamentos em torno de temas sobre os quais se discordam. Os casais mais antigos e que viveram muitos anos juntos afirmam sabiamente que o que fez com que eles vivessem tantos anos juntos foi o cultivo da sua capacidade para conversar e superarem juntos as suas dificuldades.

Os terapeutas de casais estão percebendo que os casais mais novos são mais incompetentes para conversar, eles são preguiçosos para o diálogo, abandonam seus conflitos sem solução e se separam porque perderam a capacidade para a convivência. Eles agridem o patrimônio afetivo que eles têm e acabam destruindo os vínculos e as relações.

A agressividade exagerada – mesmo que seja apenas no uso da palavra – é falta de educação e às vezes acontece quando o casal é íntimo demais. Uma das coisas que acaba com a intimidade é o excesso de intimidade porque leva à falta de respeito.

Há momentos em que as pessoas se tornam estranhas demais como se fossem monstros e vão perdendo o carinho, especialmente quando bebem ou usam drogas. Ainda que em pequenas quantidades a bebida e as drogas destroem as pessoas originais e as transformam em seres rasurados que já não são mais quem eram antes e se desentendem ainda mais.

Sempre que brigamos na frente de crianças, damos a elas um péssimo exemplo e ficamos menores do que elas, passando mensagens de imaturidade que fazem estragos na vida emocional delas e as prejudicamos profundamente.

Sabe-se que o sistema familiar informa quando a família está em crise e mesmo que as brigas não sejam presenciadas, se elas não são úteis para a evolução do grupo, prejudicam a plasticidade do destempero por demais ofensivo e prejudicial.

Depois que as brigas acontecem, é necessário conversar com as crianças e tranquilizá-las explicando que ela continua sendo amada e que tudo está em ordem. Deve-se inclusive esperar que ela faça perguntas para que seja possível esclarecê-la sobre o ocorrido.

As crianças um pouco maiores e os adolescentes elaboram melhor o que acontece, mas são tão vulneráveis e se impressionam tanto quanto elas. Pois quando assistimos uma agressão, somos todos agredidos de alguma forma no outro e com o outro.

Os brigões servem de modelo para os seus descendentes e as suas relações sociais e acabam formatando as relações dos filhos para a vida futura e a tendência é induzir às repetições dos seus padrões de relacionamentos.

Assim, de certa forma, o agressor de hoje é responsável pelos conflitos que serão repetidos no futuro e de certa forma constroem a repetição, optando por uma educação que prepara seus descentes para fracassarem sendo futuros agressores.

Se o tom da voz é mais acalorado durante um desentendimento o agressor passa a dever explicações e desculpas aos seus filhos, ainda que sejam bebes e também aos seus agredidos e ao fazer isto, eles se retratam diante dos familiares, dos ancestrais e os descendentes.

Uma das agressões mais terríveis é quando falam mal dos parceiros para seus filhos, como se fossem “vítimas” e o outro fosse um demônio. É assim que se piora ainda mais as coisas.

Os menores não podem e não devem concordar com o agressor por estarem numa perspectiva diferenciada e como filhos não podem pensar e muito menos ver as coisas como os adultos veem.

Os adultos e os pais menos preparados ou mais perturbados gostam de usar seus filhos como aliados contra o outro, especialmente em momentos de separação, como se os filhos tivessem que tomar partido e ficarem do seu lado. Com isto, os prejuízos às vezes são tão imensos que nem as futuras terapias conseguem resolver.

As duas enfermidades que nascem destas tentativas de “usar” as crianças a seu favor e como arma de agressão “contra” o outro, são as esquizofrenias, os autismos e as bipolaridades. Tenho classificado estas atitudes de pais deficientes assim como, “técnicas para enlouquecer o outro”.

Quando vivemos isto, é porque alguns pais são mais infantis do que os seus filhos, e isto faz os filhos serem pais dos seus pais, invertendo a ordem e criando as desordens, fazendo com que os descendentes os sigam e tenham que buscar ajuda para viver com alguma possibilidade de acerto.

Ser pais é mais do que se engravidar e ver uma barriga crescer. É uma experiência que exige o mínimo de preparo, como alguém que se propõe a ser anfitrião de alguém no mundo, e não se pode convidar alguém para sua casa (Terra) e depois tratá-lo mal e deixá-lo à própria sorte.

As crianças precisam viver num ambiente protegido, calmo e relaxado para ser um adulto seguro. O paradoxo está no fato de que, não tendo um mínimo de equilíbrio, pais assim não conseguem sequer saber que não estão prontos para serem responsáveis por uma vida e pela criação.

Somos imperfeitos. Não sabemos sermos bons pais, amantes ou cônjuges. Estamos despreparados e exageramos em nossos descuidos, prejudicando os que estão sob nossa responsabilidade.

Ouvi certa vez de Thomas Szasz, M.D., pai da antipsiquiatria e autor do livro “A fabricação da loucura”, uma bela definição do que é a “loucura” quando ele disse que: “Ser louco é falar tudo o que pensamos ou sentimos”.

Não podemos e não devemos falar tudo o que pensamos ou sentimos, ao contrário, devemos segurar e guardar para nós o que pensamos e sentimos, especialmente em momentos de crise, quando estamos em conflito, nervosos e fora de nós mesmos, mas de novo e paradoxalmente, é exatamente por estarmos tão alterados que não conseguimos esse desejável autocontrole.

Por outro lado, aquilo que falamos quase nunca é o que o outro ouve, especialmente nos momentos de desentendimento! Mesmo porque, os momentos de desentendimentos são momentos para se desentender. Sendo assim, melhor seria ficar em silêncio, se calar, e num outro momento, quando a poeira abaixar retomar o tema com mais calma.

Existe um mito de que devemos ser verdadeiros e falarmos tudo que pensamos, despejando sobre o outro o nosso lixo. Na verdade, esta é uma manifestação de agressividade e não de amor e assim nos tornamos ainda mais desequilibrados e pioramos o que já não está bom.

A criança que assiste brigas dos seus pais se sente culpada pelo que acontece principalmente se são motivos das brigas. As células dos genitores estão nela e faz com que se sinta uma extensão do seu pai e da sua mãe. E como extensão de ambos, sentem-se ao mesmo tempo “agressor” e “agredido” e se enlouquece porque tem culpa por agredir e tem raiva por ser agredido.

Assim como é melhor não tomarmos álcool antes de dirigir e evitar o uso do celular para não causar acidentes, alguns cuidados precisam ser tomados para não prejudicarmos os nossos companheiros, as nossas famílias e os nossos filhos.

Precisamos nos silenciar quando somos incapazes de nos comunicarmos, aprendermos a escutar para que a nossa comunicação seja melhor e para que não prejudiquemos aqueles com os quais interagimos.

Não devemos levantar a voz, usar palavrões e nem nos agredirmos, especialmente estando diante de crianças, porque elas também são atingidas e serão alvos das nossas ofensas.

O desrespeito nunca foi e nem será normal em nenhuma cultura e quando as discussões se tornam brigas, isto significa que eles precisam aprender a controlar os seus impulsos e talvez necessitem da ajuda de profissionais para consegui-lo.

As crianças que vivem em famílias onde as discussões são graves, podem conversar com outras pessoas buscando ajuda, falando com familiares e professores, o padre, o pastor, com o psicólogo da escola ou quaisquer adultos em quem possam confiar embora, às vezes, tenham medo de represálias.

Nenhuma família é perfeita. Até mesmo nos lares felizes surgem desentendimentos de tempo em tempo. Geralmente um deles expõe enfaticamente o que lhes preocupam e depois a família se reequilibra e a vida volta ao normal.

Fazer parte de uma família significa, às vezes, dar de ombro tentando fazer o melhor para os demais. As discussões acontecem e tudo continua em paz. Com amor, compreensão e esforço, as famílias podem solucionar quase que quaisquer problemas.

Convém evitarmos cair na tentação de culpar os pais pelos nossos fracassos. A educação pode durar toda a vida e o que podemos fazer com nosso passado é ficarmos com o que os nossos pais nos deram de bom. Esta é a tarefa de uma pessoa adulta, quesupera as revoltas contra os seus pais e as coisas do passado.

Quais, enfim, são as condutas que podem afetar seriamente o futuro das crianças?

Uma delas é quando elas crianças são disputadas em separações e então se tornam nervosas, choram, brigam com outras crianças na escola, têm problemas de aprendizagem e de sono, podem ter bruxismos, voltarem a fazer xixi na cama e, de maneira geral se tornam hiperativas.

As palavras agressivas são modelos seguidos pelas crianças. Os casais precisam se comunicar de forma relaxada sobre as suas diferenças, expondo seus sentimentos de forma equilibrada, cientes de que o tom de voz pode causar mais danos do que as palavras em si mesmas.

Pesquisas demonstram que as crianças que pertencem às famílias em conflitos sofrem emocionalmente da mesma forma que as que veem das famílias separadas ou daquelas que veem das regiões de guerras.

Por isto, a recomendação é para que os pais fiquem atentos e evitem causar problemas para seus filhos com palavras, gritos e discussões.

Não façam com que seus filhos tomem partido por um dos dois.

Não transformem seus filhos em ombros para desabafo e fontes de apoio.

Quando as crianças perguntam, eles devem explicar que as discussões familiares são naturais, porém há maneiras equilibradas de se fazê-lo.

Os pais precisam ficar atentos com atitudes, com bater portas, fazer caras de susto ou de nojo, já que as crianças percebem todos os detalhes do que está acontecendo à sua volta.

É necessário saber que maus tratos não são apenas as agressões físicas, mas também as agressões psicológicas que acontecem quando expomos as crianças a ambientes hostis, discussões constantes e uma das piores formas de maus tratos psicológicos é a comparação de uma criança com outras crianças.

As crianças exposta a este tipo de ambiente são prejudicadas porque isto influencia todo seu ser. Viver em tal stress diminui sua autoestima, as tornam tensas, perdem a espontaneidade, são tímidas e medrosas, e no futuro terão problemas para falar em público, dificuldade com alimentação e relacionamentos, sono e desinteresse profissional por pensarem que todo mundo à sua volta é ruim, adotando uma atitude defensiva.

CONCLUSÃO: Quando um casal tem muitas insatisfações eles devem buscar soluções, ajuda terapêutica para corrigir sua relação ou talvez se separar – se for o caso, – porém deve fazê-lo da forma menos traumática possível para proteger as crianças, porque elas sofrem com o que acontece.

As crianças se educam para sofrer com as crises dos seus pais, se metem em dificuldade e se tornam brigonas. Elas tendem a fazer o que pais faziam, repetindo padrões, fazendo com que tudo se repita, até o dia em que encontrem as terapias que as, às vezes, com um pouco de sorte as retirem dos problemas que elas herdaram.

José Carlos Vitor Gomes, psic.

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