COMPREENDER E SUPERAR CONFLITOS NA RELAÇÃO MÃE-FILHA

- Nem todas as mães são tão boas -

 

Correção: Cristiane Marques Moraes

Quando vejo alguém fazendo um selfie, lembro-me de que as redes sociais, se converteram em cenários onde os narcísicos e os portadores dos Transtornos de Personalidades Narcísicas têm preferido se revelar. Faz parte do seu show! Há uma certa obsessão, um desejo imenso de se machucarem se expondo.

Existem três públicos no Facebook e no Instagram, sendo um pequeno grupo de pessoas conscientes que os utilizam como meios de comunicação, os lobos do mundo que transformam tudo em oportunidades para os negócios e um vasto universo composto pelas pessoas, grande parte das quais estão enfermas e literalmente caem nas redes como se fossem peixes, por razões neuróticas, psicóticas e até criminosas.

Os Gregos eram fascinados pelo espelho, esta ferramenta que surgiu ainda na Idade do Bronze, há cerca de 5.000 anos, e cultuavam a beleza física e a imagem perfeita por motivos de saúde, mas o cultivo da imagem em nosso mundo, é algo cada vez mais doente, feito por razões narcísicas, por pessoas que precisam se acharem belas e passam pelo mundo se exibindo, publicando as suas belezas e as suas carências. Diferentemente dos gregos, estamos cada vez mais sedentários e se caímos nas redes, é porque elas são as armadilhas preferidas e inevitáveis dos que procuram a admiração e a exposição.

As redes nas quais caímos, são muito mais agressivas do que imaginamos e do que pode notar a nossa frágil lucidez, redes onde, diferentemente dos peixes que morrem pela boca, morremos pela vaidade interesseira dos olhos ansiosos para comerem e serem comidos na guerra consumista dos mundos, onde todos se revezam como iscas e peixes e são vítimas das suas próprias armas.

Assim, os narcisistas transitam em cardumes a procura das redes nas quais desejam se enroscar. São pessoas que se olham nos espelhos, e vagam de telas em telas como fazia o velho Narciso mitológico, que há quase duzentos anos se repetiu nas Brancas de Neves através das quais a humanidade se admira e se pergunta classicamente; “Espelho, espelho meu; existe alguém melhor, mais interessante ou mais bela do que eu?”

Questionamentos íntimos e silenciosos merecem em contrapartida respostas também sutis, imaginárias ou não, reais ou irreais, conscientes ou inconscientes, boatos e fofocas que se alimentam nas “nuvens” de uma comunicação tão paradoxal, que as teses do Grupo de Palo Alto, os pais da terapia familiar clarearam e graças a elas sabemos hoje nítida e contundentemente que “É impossível não se comunicar.”

É por tais motivos que o narcisista, no fundo, está em permanente busca de reconhecimento, de superioridade, da mais insistente admiração e do amor do outro, porque lhe falta o próprio amor.

Talvez por isto exiba o lado bom da sua existência porque a vida é bela, porque ela tem sentido e pode até causar invejas, porque deseja ostentar o que se vive ou imaginam viver, para passarem uma imagem mais real do que é a própria realidade.

Na verdade, o narcísico nosso de cada dia acaba conseguindo o oposto do que ele busca, construindo contra si mesmo a inveja, a dúvida, o mau olhado, a ridicularização, os boatos e as fofocas mais desconfiadas sobre o que ele vive.

Os amigos das redes são amigos das redes ... e não dos que nelas caem e nem sempre olham com a ideal e tão sonhada “admiração” e muito menos com o “respeitoso amor” que se espera dos amigos reais e verdadeiros.

Na verdade, o erro de Narciso foi o de ser o seu próprio fã e o seu incorrigível auto-admirador, um ser orgulhoso da sua suposta beleza. Narciso tinha uma irmã gêmea idêntica pela qual era apaixonado, se vestiam da mesma forma e as suas roupas eram praticamente iguais, mas como nada é para sempre, um dia ela morreu, e Narciso, consumido pelo desgosto, olha desesperadamente para a água aonde parecia ver refletida em sua imagem, a bela face angelical de sua amada.

Louco de saudade, um dia Narciso, vendo a face da sua irmã além do espelho, talvez como Alice que se encantava consigo mesma do outro lado do nada, jogou-se nas águas e logo morreu por afogamento, talvez inebriado com o sonho daqueles que morrem afogados e bêbados de si mesmos.

Na psicologia, o narcisismo foi um conceito desenvolvido por Sigmund Freud que define o amor exacerbado de um indivíduo por si próprio, e sobretudo por sua própria imagem que ele não discrimina se é sua ou da sua irmã, mas era uma projeção da própria face nos espelhos d’agua deste mundo.

Para pensarmos um pouco sobre o seu nome, Narciso vem narke (o entorpecido), de cuja origem nasce a palavra narcótico, e se converte no universo do drogado e do bêbado que tem a mesma sede de Narciso, que é uma espécie de “O caçador de si mesmo”, título de um dos meus livros sobre o tema.

Narciso estava verdadeiramente tomado de amor por sua irmã e acabou se jogando na água talvez para ficar para sempre com ela. Reza a lenda, que no lugar onde ele morreu nasceu uma belíssima flor conhecida como a Flor de Narciso e abaixo está uma das variações de sua espécie.

O narcisista tem uma imagem inflada e distorcida de si mesmo. São estas pessoas que se acham melhores que as demais, e acreditam que merecem um tratamento privilegiado por se acharem importantes.

Para justificarmos o tema em questão; os narcisistas, existem duas formas de narcisismos, a dos que se acham grandiosos e estes são caraterizado pela extroversão, são dominadores e buscadores de atenção, são talvez como os políticos que insinuam coisas do tipo; “votem em mim porque sou o melhor”, embora, é claro, nem todos os que tenham estes traços de personalidades sejam doentemente narcísicos.

O segundo tipo é dos narcisistas vulneráveis que podem ser mais quietos e reservados, são reclamões, ressentidos, podem ser antiéticos, quando se casam podem ser infiéis, trair e serem desleais e se confrontados podem se tornar agressivos.

O TPN - Transtorno de Personalidade Narcisista pode se compor de até cinco por cento da população mundial, são mais frequentemente adultos do sexo masculinos, traços que podem aparecer também em crianças, mas é parte do desenvolvimento infantil normal.

Eles têm uma visão grandiosa sobre si mesmos, tem problemas de relacionamento e empatia, exigem tratamentos especiais, precisam ser admirados e de receber constantes feedbacks sobre a sua performance. Dizem que o narcisismo tem um componente genético embora não saibamos direito quais gens estão envolvidos no problema, mas variáveis ambientais também estão presentes.

 

Manifestações do narcisismo

Ao longo dos anos trabalhando inclusive com transtornos narcisismos doentios, acompanhei certa vez um paciente médico que tinha uma mãe complicada e que o tratava mal quando pequeno, que o discriminava e o tratava como se fosse pior do que o seu irmão mais velho que mais tarde seguiria carreira militar e também se tornaria piloto de helicópteros.

Ela obrigava seu pequeno filho a lavar louças, varrer a casa e cumprir com os afazeres domésticos que seriam dela, uma senhora adequada à um modelo social setentista, onde o homem “trabalhava fora” e a mulher deveria “cuidar da casa”. Assim ela era praticamente “do lar”, mas não assumia isto e obrigava seu filho que tinha entre 8 e 12 anos de idade a trabalhar por ela, às vezes sendo xingado, apanhando e sendo maltratado, com seu pai que fingia não ver, não o defendia e às vezes ainda participava do massacre.

Apesar de tudo, ele evoluiu e se tornou um grande médico. Superou as maldades, todavia, se sentia culpado por tê-la deixado de lado, e muitos anos depois ela faleceu sozinha em casa, após ligar para ele seguidamente e dele ter se recusado a atende-la.

Naquele momento ela estava morrendo e sendo médico, evidentemente a teria atendido, mas sem saber o que acontecia e movido por antigas mágoas não gostava de atender às suas ligações. A visitava esporadicamente, mas agora estava casado, tinha se retirado do convívio familiar, cuja solução é desejável para os que passam por tais desventuras.

Na verdade, após saber da morte de sua mãe, entrou num processo de culpa e somatizava coisas da sua sofrida rejeição de infância. Por um tempo se tornou obeso e após fazer uma cirurgia bariátrica passou por alterações de humor e o seu casamento não resistiria as suas radicais mudanças positivas.

Na verdade, a sua mulher tinha sido escolhida a partir de um modelo de mulher parecido como o de sua mãe e era uma relação bastante conflituosa. Com a sua mudança pelos anos de terapia, a relação de casados perdera completamente o sentido pois aquela mulher se parecida à sua mãe e não significava mais nada para ele.

Para concluir: Ele cresceu muito, progrediu, evoluiu, construiu uma casa nova e foi viver uma relação melhor com outra mulher que estava mais compatível com a sua nova vida após o divórcio, o emagrecimento, a mudança de paradigmas e a sua cura.

Caminhando um pouco mais na compreensão do TPN - Transtorno de Personalidade Narcísica, hoje sabemos que ele surge quando os pais colocam seus filhos num pedestal que exagerada a autoestima e quando deixa claro que este (é o melhor), ou ao contrário, quando a criança é maltratada e sai pela vida (se achando o pior ser do mundo) – ou sempre que existam comparações onde alguém é muito elogiado em detrimento de outro que é desqualificado.

Neste contexto, as redes sociais são veículos da manifestação das personalidades narcísicas como refletimos no começo deste artigo, porém a saúde vem da base familiar e está na qualidade dos vínculos que se desenvolvem na relação familiar e o que pode ajudar na reabilitação de uma personalidade narcísica é a psicoterapia, a compaixão e a educação das relações interpessoais.

Partindo da origem do conceito na mitologia grega onde Narciso era fascinado por sua própria beleza e não enxergava ninguém além de si mesmo, surgiu o conceito de Transtorno de Personalidade Narcísica e temos mostrado histórias de famílias com mães portadoras deste transtorno, mães que frequentemente entram em competição e por inveja e agridem as próprias filhas.

Semelhantemente ao paciente médico, vejamos o caso de uma jovem e a sua mãe, onde o que poderia ter sido o maior caso de amor de suas vidas, se tornou um inferno. O relacionamento não deu certo. Aquela mãe via sempre o lado negativo das coisas, nunca fez um carinho e sequer algum dia fez a sua filha carinhosamente dormir e entre elas nunca houve qualquer expressão real de amor.

A jovem não conseguia sequer falar de sua mãe porque não a entendia e parecia nutrir por ela um ódio mortal e inexplicável que nunca conseguimos entender direito por que razões acontecia.

É assim que muitos filhos não conseguem ter lembranças boas de suas mães (que socialmente são vistas como excelentes), e isto parece ficar ainda mais grave quando os filhos passam a se sentirem culpados por não conseguirem amar às suas mães, nem declarar seu amor e sequer conseguem saber por quê.

Se lhes perguntássemos “você acha que a sua mãe ama você?” a resposta seria quase sempre “não”, por outro lado, se lhes perguntássemos “você ama a sua mãe?” a resposta, da mesma forma provavelmente seria “não”. Com um comportamento exageradamente agressivo, aquela mãe chegou a dizer tranquilamente algo esquisitamente agressivo: “Você não foi planejada, eu não gosto de você, e facilmente a teria abortado.”

Na internet, e pelo mundo afora, existem milhares de publicações sobre os conflitos terríveis entre filhas e mães, e seus autores definiram alguns deles como Transtornos de Personalidades Narcisistas que passaram a ser descritos nos manuais internacionais de diagnósticos, nos chamados DSM e no CID – Código Internacional das Doenças, como alguns dos piores transtornos mentais existentes.

Estas mães são muito egocêntricas, não têm sensibilidade para com a dor humana e tudo o que elas fazem, no fundo tende a ser em benefício de si mesmas, disse a psiquiatra Silvia Rawicz, enfatizando que são mães manipuladoras que atingem filhos ou filhas, homens ou mulheres, chefes, namorados, maridos, esposas e até amigas. Em alguns casos é possível ir morar longe, porém, e quando a pessoa transtornada é sua própria mãe?

Esta paciente conta que a sua mãe lhe disse “engravidei-me não porque a quisesse, mas porque todos queriam que eu tivesse um filho ou uma filha para ser o “neto” ou o “filho”, um troféu para a família, mas não se iluda; por mim você não teria nascido.”

Tudo isto não tem nada de novo, pois afinal, mães que não querem filhos porque são narcisistas sempre existiram, mas a pergunta que não quer calar é: “porque somente agora começamos a falar abertamente sobre o assunto?”. A Dra. Rawicz responde que isto ocorre por conta da internet onde as vítimas começaram a falar sobre as suas mães difíceis, com o que eu concordo plenamente.

Os primeiros grupos de filhas de mães narcísicas começaram a surgir nos Estados Unidos, mas atualmente, no mundo todo tem acontecido importantes congressos sobre o tema em diversas abordagens.

Alguns pesquisadores estudam a questão desde o final dos anos setenta e já existem publicações importantes que são referências para os estudiosos do resto do mundo. É muito raro um narcisista procurar ajuda porque eles não acreditam que estão doentes, pelo contrário, acham que são saudáveis e que, na verdade, são portadores de uma excelente autoestima.

Isto é mais verdadeiro ainda quando a narcisista de plantão é uma mãe, uma destas pessoas que fazem todas as regras que elas mesmas irão quebrar logo depois, que não aceitam serem criticadas porquanto são mães, sabem o que fazem, não admitem erros e muito menos aceitam que precisam de ajuda.

Alguns psicólogos se especializaram no tratamento das vítimas destas mães, e segundo a Dra. Michele Engelke, autora do livro “Prisioneiras do espelho”, entre outros, estas mães não vão se tratar de forma espontânea, ao contrário, elas vão usar a sua função de mãe para oprimir, para influenciarem de forma negativa, para controlar e manipular às suas filhas.

Estas filhas são, na prática, pessoas que sofrem com mães despreparadas que não gostariam de ter deformado seus corpos para terem filhos e é na adolescência que os problemas ficam ainda mais aparentes. Uma filha disse-me certa vez; “Quando eu comecei a me relacionar com meninos, ela começou a ficar mais preocupada e passou a denegrir a minha imagem e a trabalhar contra mim.”

Ser criança num cenário familiar assim não é nada fácil, porque embora a gente nem sempre sofra por causa dos abusos, não podemos ter vontade própria e quase sempre acabamos nos tornando submissos, escravos ou uma espécie de extensão das nossas mães, que perderam por nós os seus belos corpos e agora se projetam e se realizarem através de nós.

As famílias com esta síndrome, dizem literalmente “este filho ou filha é meu” e “eles têm que me agradar fazendo aquilo que eu acho melhor para eles e são obrigados a pensar como eu penso.”

Ouvi histórias de filhos que não saiam do quarto, que às vezes ficavam sem tomar água ou sem ir ao banheiro, apenas para evitar cruzar com as suas mães pela casa, e assim entravam num processo de evitação e viviam em casa como se fosse numa prisão.

Numa reportagem da Rede Globo foram descritas as agressões à uma jovem, que depois de anos denunciou sua própria mãe e ela foi enquadrada na Lei Maria da Penha, ela que em suas brigas dizia coisas do tipo; “A partir de hoje eu sou a sua pior inimiga. A sua inimiga número um. Toda as vezes que você pensar em mim, pense; ela vai me matar!”. “E eu vou te matar”, disse aquela mãe.

Esta jovem relata que chegou a apanhar inclusive enquanto estava grávida e logo depois do filho ter nascido. Alega não ter se arrependido de forma alguma por tê-la denunciado, e apesar de doer, se sentia em paz e tudo isto nos ensina que, de fato, nem todas as mães são tão boas como se imagina e isto, na verdade, é um tabu que ainda está por ser quebrado.

Aos 36 anos, essa vítima de sua mãe narcisista não tem mais contato com ela e segue fazendo psicoterapia para se livrar dos seus traumas e somente a pouco tempo ela conseguiu entender que o seu problema não é apenas seu, mas é também do seu sistema familiar e muito especialmente, de sua mãe.

Cortar vínculos pode ser delicado, mas é possível e por vezes, desejável. Estas pessoas pedem acompanhamento, às vezes, a vida inteira, e os profissionais que acreditam em ajuda efetiva e na cura, precisam estar preparados para a compreensão da semiologia desses pacientes que são mais comuns do que imagina a nossa vã psicologia.

José Carlos Vitor Gomes, Psic.
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(019) 99191-5685

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