Companheiros de Viagem

almaO amor é uma coisa viva que sobrevive da saudade e da distância, que existe entre os seres amados, onde muitos relacionamentos acabam porque existem homens que são como “crianças abandonadas” que grudam em suas companheiras, e para elas, não existe nada mais repulsivo do que “companheiros inseguros” que não sabem viver sem o outro. São crianças emocionais. Existem também companheiras que vivem dizendo que morreriam sem a companhia do outro, e isto que dá um certo medo, tem o poder de acabar com as relações.

Eu fui descobrindo ao longo de dezenas de anos como terapeuta que; o que acaba com a intimidade é o excesso de intimidade.

Então, assim como disse a música TREM-BALA da cantora Ana Vilela, não se trata de ter as pessoas para si, mas de saber que em algum lugar do mundo alguém zela por nós, e dedica o tempo da sua existência a nós. Trata-se de cantar e conseguir escutar mais do que a sua própria voz, como se o outro cantasse e dançasse na chuva da vida que cai sobre nós.

Quando você mostra a sua dependência e a sua insegurança, a relação está caminhando para o fim. Quando você demonstra que ama sem precisar morrer pelo outro, a relação cresce e fica mais poderosa. Precisamos superar esta síndrome de Romeu e Julieta, porque esta foi a história de uma relação que não deu certo. Na verdade, dizem que Romeu fez o que fez para preservar Julieta da realidade tediosa da vida cotidiana e da mesmice do dia a dia, para poupá-la das encrencas e para não estragar a beleza das coisas.

Amar é saber-se infinito, num universo tão vasto e bonito – segue a letra da música -, é saber sonhar-se, e fazer valer a pena cada verso de cada poema sobre a incrível arte de acreditar. Não é – por causa do outro – que você tem força para se chegar ao topo do mundo e saber-se vencedor, mas de saber escalar e descobrir que o caminho nos ensina a andar, nos fortalece e nos abriga, que a nossa morada é no coração do outro, mas é também ter amigos e transitar só e livremente pela vida.

Mas o amante é guloso e quer “ter” o outro. Quer sentir-se dono da história alheia sem saber que o destino de cada um, é propriedade exclusiva de cada um. Sabem por que? Porque a gente pode “ser” o que quiser nesta vida, mas não pode ter tudo, nada e ninguém, porque se assim o fosse, a vida não teria a mínima graça. Porque na verdade, o que temos do outro são os seus sentimentos que sequer os conhecemos, o sorriso e as lágrimas, que às vezes, são heranças de uma vida inteira, e o coração é uma terra que ninguém vê. São os presentes que a vida traz, e mesmo distantes, às vezes persistem até após a morte, quando finalmente a gente se ama às vezes ainda mais e a vida nos devolve e nos traz de volta para junto de nós mesmos.

Apesar da luta e da vida às vezes tempestuosa de cada um, como digo em meu livro “O caçador de si mesmo”, ela não versa sobre o que o dinheiro é capaz de ter e comprar, mas sobre cada momento, sobre cada alegria, sobre o humor e cada sorriso compartilhados. Não é sobre correr atrás das coisas perdidas e contra o tempo que passa, enquanto buscamos mais, porque quando menos se espera, a vida é tudo que ficou para trás.

...E hoje olho com pensares por ter trabalhado tanto, por ter segurado tão pouco os meus filhos nos meus braços, por ter abraçado tão pouco os meus pais enquanto era possível, porque a vida passa como um trem-bala, onde todos somos passageiros e estamos de partida.

Com isto, vamos aprendendo a amar como seres transitórios, a ver a pessoa amada como se fosse pela última vez e a passar por todos os caminhos como se nunca mais tivéssemos esta oportunidade. Porque de fato, haverá um dia em que a gente se vai para nunca mais voltar. Agora, desculpo-me com os meus filhos por tê-los carregado tão pouco no colo. Por ter sido destas pessoas que perdem o tempo com a ilusão de estar aproveitando cada minuto, porque não percebem que a vida é um trem-bala, onde todos estamos prestes a partir porque todos somos simplesmente “passageiros”.

 

José Carlos Vitor Gomes
(19) 99191-5685

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