Amar-se como ninguém

“Os que amam como Ninguém; são tratados como Ninguém”.

Lost - Socorro!

- Tirem-me da daqui! Foram os gritos que eu ouvi daquele serzinho que estava sentado sobre uma grande pedra na beira da estrada e me parecia estar ali já por muito tempo. Quem é esta criatura esquisita? De onde ela vem? Para onde vai?

De qualquer maneira, cada um se encontra onde se coloca. Pensei já sem querer pensar mais nada, porque deixei de acreditar na maior parte das coisas eu penso.

O vento desértico rugia a sua estranha cantiga e a areia que brilhava como ouro também ardia e lixava o rosto de quem passasse no meio das suas ondas, mas de forma alguma Lost, como por fim disse-me que se chamava, esboçava qualquer medo de tempestades e éramos rigorosamente da mesma espécie.

No seu rosto cor de doce de leite a pele parecia queimada pelo sol furioso das regiões altiplanas e talvez ele tivesse fome ou sede. Teria sido melhor perguntar e o fiz! Parei a viagem e comecei a conversar com aquela coisinha assexuada perguntando primeiro o seu nome e sem demora comecei a ouvir o que até agora eu jamais conseguiria esquecer.

Enquanto falava as ondas ventaniosas continuavam a rugir e eis a resposta misteriosa que ouvi daquele ser que parecia recém-chegado talvez de outros mundos, de cuja pele, dedos e mãos brotavam folhas verdes e galhos, e tinha um hálito madeirado talvez de frutas cítricas ou de ervas.

  • Meu nome é Lost: lost.com, respondeu-me! Desertei-me de mim mesmo. Acho que eu merecia ter sido alguém “como eu” e desisti desse imenso desafio. Agora estou fora do meu lugar e vago perdido de mim mesmo e desse meu lugar que sou eu.
  • Onde estão os meus restos? Questiono-me.
  • Eu queria pagar o milionário imposto de me pertencer e de ser o meu único dono de mim mesmo.
  • Eu já me busquei por todos os lugares e nada de mim! Quase desisti. E qual não foi a minha surpresa quando há alguns dias dei-me de cara comigo sentado em posição de lótus contemplando os bosques que ficam no horizonte quase do outro lado da vida!

Eu mal entendia do que falavam os losts embora fossemos irmãos da mesma espécie; especialmente aquele que se chamava Nowhere Man, que era o mais perfeito líder dos líderes losts, ou dos mundos perdidos, e ainda se gabava de pertencer aos seres de Lugar Nenhum. Enfim percebi que se tratava de um personagem e eu facilmente o compreendia como se falássemos a mesma língua.

Parecia ter problemas mentais, mas Lost não estava perdido; ele era perdido. Ele precisava ser perdido e dependia desta sua condição, mas ainda parecia desconhecer que se alguém quiser um dia se encontrar antes terá que se desertar.

Estou com sorte! Descobri que procuro um sentido para a minha vida e que este sentido me falta desde que nasci e ele precisaria necessariamente faltar para que eu o buscasse com todas as forças da minha alma e eu, apesar toda ignorância sobre mim, descobri ainda no amanhecer da existência que o sentido da vida é buscar algum sentido para as nossas vidas.

Por isto pertenço ao planeta dos perdidos e à espécie lost como os humanos agora extintos pertenceram à humanidade! Esta é a minha espécie! Gosto da minha vida de caçador. Eu sempre fui assim! Vivo me buscando aqui acolá. Sempre fui um perdido e esta condição de “lost” conforta e justifica a minha essência.

Preciso me buscar, preciso de um sentido, sinto falta desse “buscador” que me fareja e quero que ele me encontre e me devolva de volta para mim. Onde está o meu piloto automático? Eu preciso de algo que procure por mim o que eu preciso procurar e me ache entre as coisas que eu busco.

As minhas desconfianças eram essenciais porque me definiam e me conferiam segurança. Elas inauguravam o meu “lostismo[1]” e a minha condição de estar-aí perdido no mundo e as necessidades que eu tinha e tenho de encontrar o meu sábio Mestre Caçador, ou talvez o autocaçador que se fareja e clama por si mesmo.

  • Que estranho me ver ali diante de mim mesmo! Continuou o nosso curioso Nowhere Man, o perdido dos perdidos que prontamente se batizava como Lost, o meu estranho amigo que também clara e orgulhosamente por vezes se definia como Ninguém e ria da sua condição como Homem de Lugar Nenhum.
  • Eu estou totalmente sem jeito! Quem te viu e quem te vê, hein? Meu olhar se espanta ao ver que eu vou quase que arrastando o meu próprio corpo, como o velho Zaratustra com seu barulhento caixão quando esfolava o cascalho.

Os meus cabelos longos estão queimados pelo sol do deserto, deste astro luminoso cujos raios zombeteiros vivem punindo os perdidos, aqueles que vagam sem rumo e sentido e nem as montanhas ventaniosas refrescam a face dos que pingam suor.

Mais adiante avistei um idoso e olhei com o cuidado de um forasteiro como se eu fosse uma estrela de bang bang ou talvez um fora da lei e ele se aproximou sem reservas, estendeu a mão se apresentando como simples caçador. Será?

– Boa tarde meu Caçador! Disse-lhe certo de que adivinhara o seu nome. Ele poderia ter outros nomes, eu sei, mas sentia que era o “guia”, o salvador, o “buscador” preferido dos perdidos ou das coisas perdidas dessa Terra de Ninguém.

- O meu nome é Ninguém, na verdade, as vezes me chamam de Nada! Eu exijo respeito, caro senhor! Sou um lenhador, um caçador e ás vezes um buscador nessas Terras de Ninguém. Venho das montanhas perdidas onde todos são meio monges e meio curandeiros e onde a dúvida e a incerteza há muitos anos já não existem mais.

E dizendo isto ele se voltou para si mesmo, fez meia volta e retornou para o trono das matas com um ar seguro e arrogante e eu permaneci ali boqueaberto, assustado ou quem sabe encantado com a postura firme e a forte blindagem daquele misterioso ser.

José Carlos Vitor Gomes, Psic.

19  99191-5685

[1] Lostismo é a afirmação de que o ser está perdido no mundo. Sempre fomos perdidos e isto não é ruim porque é estando perdidos que se busca um sentido para a vida.

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