A metáfora da vela e o sentido da vida

- Alexander Batthyány -
Tradução: José Carlos Vitor Gomes

Nicolae Tanase: Dr. Batthyány, qual é o sentido da vida?

Alexander Batthyány: Segundo a Logoterapia de Viktor Frankl — o criador da escola psicológica que, de forma pioneira agrega ao panorama da Psicologia e da Psicoterapia a questão do sentido da vida —  a vida é plena de sentido – não apenas porque existe um sentido nela, mas porque cada momento está sempre potencialmente “fecundado” e pleno de promessas de sentido.

Em outras palavras, cada situação da vida de cada um, por simples que seja, traz em si uma variedade de novas possibilidades como se fosse alguém a nos questionar: E agora? Qual será o próximo passo? E a vida de novo nos pergunta, e então: o que você vai fazer de mim? Qual será a sua nova escolha?

Se formos capazes de compreender bem esta questão, descobriremos que o futuro está em aberto, que tudo depende ainda que parcialmente de nós e qual o destino vamos dar à esta nova situação. Mesmo quando a situação em si parece imutável e quando tudo parece inegociável, pelos menos a reação diante da situação será completamente nossa, ou seja, podemos lidar com cada nova situação que, em tese, não poderia ser mudada; e como vemos, como reagimos diante delas, está sempre em nossas mãos e podemos efetivamente mudar ainda que seja o nosso olhar sobre ela.

Você pode ser incapaz de mudar o mundo; mas pode mudar você mesmo e o seu olhar pessoal sobre disto, e isto não pouca coisa, aliás, é o que faz diferença que faz todo diferença. Ao invés de nos declinarmos caindo no desânimo, esta reserva de liberdade e responsabilidade nos coloca novamente de pé – porque, quase que paradoxalmente, o verdadeiro tesouro da existência é a liberdade, e contrariamente aos recursos materiais, os recursos espirituais são quase sempre infinitos e ilimitados.

Para termos uma ideia sobre as implicações disto na vida cotidiana, ouçamos o que a existência nos diz sobre nós, sobre si mesma, sobre o que realmente tem valor ou não — e o que é gratuidade para todos nós! Em termos materiais, quanto mais doarmos, menos teremos, mas em um nível existencial maior, quanto mais doarmos ou dividirmos, mais teremos.

Quando mais damos coisas como o dinheiro, etc., depois de algum tempo, inevitavelmente ele se acabará. Mas, quando cuidamos e damos atenção, quando damos amor e afeição, por exemplo, quanto mais semeamos alegria e sorriso, colhemos de volta mais alegria e sorrisos, quando damos as mãos, recebemos de volta as mãos do outro, quando damos um abraço, o recebemos volta e se emitimos palavras de conforto e ânimo, teremos uma criatura confortada e feliz à nossa frente.

O problema é que controlamos demais as nossas reações e nem sempre percebemos até que ponto aquilo que fazemos retorna ou não para nós ou não, assim saberíamos o quanto fazemos a diferença por onde passamos — e que nalgum lugar do mundo alguém estará sendo afetado por aquilo que somos ou fazemos. Se você acompanhar a jornada dos efeitos de um ato de bondade, você se surpreenderá ao ver até onde ele vai e até que nível ele pode alcançar. Se focarmos no sentido do que somos e fazemos à cada instante, veremos que, na verdade, ao agir, afetamos imensamente a nós mesmos, e assim nos reconectamos com os recursos existenciais que buscamos e pelos quais tanto nos ansiamos.

Um outro ponto igualmente importante é o fato de que este sentido que flui na vida cotidiana, se abre para todos e está disponível para cada um de nós. Isto não chega a ser uma tendência inata da existência a nos conduzir para a saúde, para a felicidade, ou de algo que nos conduza para usufruirmos destes recursos. A existência não é usurpadora e nem seletiva, mas nos oferta a possibilidade do encontro do sentido.

Aqui está um pequeno exemplo que me tocou e trouxe-me uma profunda lição relacionada com a afirmação de Frankl de que o sentido pode ser encontrado em todos os lugares até o último suspiro. Há alguns meses atrás, eu visitei um hospício em Moscou. Em um daqueles quartos um pouco maiores, estavam dois homens idosos em estado terminal de câncer no pancreático. Quando eu entrei naquele quarto, vi que um estava consolando o outro, enquanto o outro ouvia profunda e atentamente. É difícil encontrar palavras para descrever a profundidade daquela troca tão humana, a sua densidade, a simplicidade e a beleza daquele encontro, mas isto me fez lembrar o fato de que mesmo nestas situações, a promessa de um sentido potencial ali estava: e nunca é tarde demais para que ele ocorra.

Uma metáfora que ouvi muitos anos atrás em uma conferência sobre Logoterapia, e que ajudou à mim e à muitos estudiosos sobre as questões da ajuda, para que fiquemos atentos ao sentido de cada momento, é a metáfora da vela — da cera que se transforma em luz. A nossa vida, transitória como é, pode ser transformar em luz, mas diferentemente da vela, esta transformação não acontece automaticamente.

Ao contrário, temos a Liberdade de escolher nos tornarmos ou não em luz, ou seja, podemos nos transformarmos e podemos não transformar as nossas vidas em luz. No entanto, se o fizermos, tornaremos a caminhada mais fácil para os outros e faremos com que a vida deles também brilhe sobre nós, e isto fará um imenso sentido para a vida, vivendo o sentido que se revela à cada momento.

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Alexander Batthyány, PhD, é diretor do Instituto Viktor Frankl e dos arquivos de Viktor Frankl em Viena. É professor da cadeira de Filosofia e Psicologia de Viktor Frankl na Academia Internacional de Filosofia no Principado de Liechtenstein. É professor de Teoria de Ciências Cognitivas no programa de Ciências Cognitivas no departamento de Psiquiatria e Análise Existencial da faculdade de Medicina da Universidade de Viena e editor dos 14 volumes das Obras Completas de Viktor Frankl.

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