A Função da Insegurança

- o medo da ameça -

A vida é a única coisa que você tem. Todas as outras coisas são assessórias, são passageiras, pertencem ao mundo e não você e você as deixará e elas deixarão você no dia da partida de volta para a sua definitiva morada.

Por isto, você precisa se colocar antes de todas as coisas, porque você é o que há de mais importante no mundo para você. Mas então nos perguntamos: - Seria isto uma postura egoísta? - Não. É claro que não! A não ser os filhos pequenos e os animais, os escolhidos pelos quais você é responsável, aqueles que de certa forma fazem parte de você, todas as demais pessoas do mundo são em primeiro lugar o que há de mais importante para elas mesmas e a partir do olhar delas, elas são e precisam ser as pessoas mais importantes do mundo para elas. Sabem por que? Porque cada pessoa é o seu próprio ponto de partida. É o seu núcleo. É o ponto zero da jornada que elas hão de fazer por si mesmas e a sua própria existência, e aqueles que amamos são apenas companheiros de viagem.

Estamos todos inseguros e a nossa insegurança é do tamanhos da nossa falta de fé. O medo ameaça o mundo, e no entanto, tudo o que nos ameaça parece ser exatamente aquilo que buscamos. Saímos pelo mundo em busca de sabedoria, de amor, paz, felicidade e algum sentido para as nossas vidas, mas não há como não busca-los, e o que é mais estranho é que nessa guerra pela paz, vamos construindo o contrário do que sonhamos.

Mais do que isto, parece que em todas as coisas há sempre um risco e ele é tudo o que precisamos para nos amedrontarmos. Se você ama, você pode ser traído. Se está com alguém, você poderá ficar só. Se faz sexo, poderás, por fim, matar o seu prazer. Se você respira, poderá inalar poluição e ter câncer. Se você se alimenta, perdera a fome, a sua vontade de comer. Se bebes poderá sofrer acidentes. Se você toma um lanche poderá aumentar o colesterol. Se fala muito será escravo das tuas palavras. Se você pensa, será tomado angústia, mas se não pensar, terá loucura e se perderá na solidão.

Para ser amparado, terá que padecer perdas e ser desamparado. Para se levantar terá antes que se propor a cair. Para ganhar terá que estar dispor a perder e não ter o que você quer. Temos que saber que assim é a vida e que precisamos cair e nos levantarmos após cada uma das nossas quedas. Alguns caem e não se levantam nunca mais. São os mais determinados a ficarem onde estão e mais sensíveis que os demais.

Existem outros que se machucam mais facilmente e são os que mais dores precisam suportar durante a vida. São os mais sensíveis e os mais sensíveis são os mais vulneráveis, que apesar de mais fortes, morrem a cada dia um pouco, mais do que os que se dedicam a derrubar a humanidade, e esses últimos são mais poderosos e ricos, vivem longamente e quase nunca morrem, porque, na verdade, não tem alma e nem consciência, cujas faltas nos atormentam dia e noite e não nos deixam dormir.

A crença na solidariedade nos ajudam a lutar por ela dia após dia por acreditarmos que ela é o amor que praticamos, é no exercício da humildade que aprendemos a reconhecermos nos demais e a vermos na face do outro a nossa própria face, a reconhecermos a grandeza das coisas pequenas que nos ajudam a denunciar a falsa grandeza daquilo que é grande. O mundo acha que um pequeno vale menos dos que um grande. Que um grande vale mais do que um pequeno, e confunde o sentido das coisas pequenas e as grandes e a falta de sabedoria dos grandes que se acham melhores que os pequenos.

Como disse há alguns anos o escritor Eduardo Galeano; “Precisamos ter um olho no microscópio para olhar as coisas pequenas e outro olho no telescópio para enxergarmos mais distante e vermos mais claramente as coisas grandes que se parecem pequenas por estarem longe, e as coisas pequenas que se parecem grandes porque estão próximas” porque são como as estrelas e as constelações.

Precisamos aprender a olhar o que não se olha e que merece ser olhado, as coisas pequenas, as pessoas anônimas, aqueles que os intelectuais desprezam, eles que compõem o micromundo que alimenta a grandeza do Universo. Precisamos contemplar o universo, através das frestas do possível, e a partir das pequenas coisas sermos capazes de enxergarmos as coisas grandes, os grandes mistérios, o sentido da dor humana e da resistência do homem na busca por um mundo que seja a casa de todos e não o céu de poucos e o inferno da maioria. Precisamos sermos capazes de ver a beleza das pessoas e das coisas simples, daquelas que têm a insólita capacidade de se expressarem às vezes numa canção, numa pintura ou na beleza natural das crianças que nós, os adultos, nos encarregamos de transformá-las e arruiná-las.

Faz pouco tempo e eu sofri uma tragédia, e morreu o Luca, o meu cachorro, meu companheiro de caminhadas e que me acompanhava deitado no não ao meu lado quando eu estava atendendo ou escrevendo em Araraquara. Às vezes, no meio de uma sessão ou de outra, ele parava na minha frente, punha uma pata sobre o meu joelho, depois a outra pata e me dava um abraço como se disse: “pare com tudo isto e vem caminhar comigo!” ... queria que eu deixasse de escrever, mas eu quase nunca o entendia. Então ele morreu e eu também quase morri por falta do meu Pitbull doce amigo.

Na verdade eu já andava pensando que isto poderia acontecer e ainda penso que devo conversar e passear com as pessoas que amo porque, de fato, nunca sabemos se será ou não a última vez. A morte do Luca arrancou um pedaço do meu coração e, para dizer a verdade, assim como nos enganamos no tamanho do amor que temos pelas pessoas, eu não fazia ideia do tamanho do amor que existia entre eu e o meu amigo Luca.

O Luca teve um enterro de gala com flores e tudo o que ele merecia e depois disto eu, aos poucos, fui conseguindo retomar as caminhadas sozinho e nada é mais como antes. Enquanto andava eu sentia a sua falta e me lembrava que ele não deixava passar nenhum detalhe, olhava todas as coisas, cheirava as flores e parecia conversar com os cães da rua e agora percebo o que aprendi com o Luca algumas destas lições mais importantes da vida.

Ele andava rindo como se dissesse “bom dia” a cada uma das coisas que ele via; “bom dia, amigos!”, “bom dia, pássaros!” “bom dia flores”... Parava e fazia xixi em cada tronco de árvore, pois, como sabemos, esta é a forma que eles tem de saudar à vida e à coisas e assim ele ia elegante como um poeta, meio cachorro e meio gente, meio filho e meio xamã, saudando a natureza com o seu olhar, com o seu xixi, com o seu corpo e toda a sua alma como se fosse a última vez que passaria por ali.

Os animais parecem que nunca perdem a esperança. São os que mais acreditam no agora, andam como se não fossem eternos e isto lhes parece inserir na descrença sobre a eternidade e a viver como se de nada servisse ao futuro e ao amanhã. O agora é o começo do caminho para o depois e os que vivem o agora, acreditam no depois, como se dissessem, “vejam que a utopia sempre foge para o horizonte e nunca poderíamos alcançá-la”, se caminho dois passos, a utopia se afasta dois passos e estará sempre além de nós.

- Para que serve a utopia? Perguntei-me certa vez e percebi que a utilidade dela é nos levar adiante e nos fazer caminhar.

O século passado nasceu prometendo paz e morreu banhado em sangue, deixando o mundo ainda mais injustiçado do que o tinha encontrado. Na sua primeira parte veio com o Holocausto e as Primeiras e as Segundas Guerras foram mostrando o quanto estávamos enganados a nosso respeito e um dos nossos Óscares foi Hiroshima.

O século atual nasceu prenunciando paz, a evolução e justiça e foi seguindo os mesmos passos do século passado, afirma-nos Eduardo Galeano, e já nos seus primeiros dias nos assustou com o pavoroso evento das Torres Gêmeas, mostrando que não somos o Zé Bonitinho que o nosso eu narcísico acredita ser. Somos, do tamanho da nossa falta de tamanho, e a nossa dor tem as dimensões do nosso desrespeito em relação a nossa espécie e a nós mesmos. Parece que não sabemos ainda que a única coisa realmente nossa é a nossa vida e o sentido que ela nunca deixou de ter.

José Carlos Vitor Gomes, Psic.
(19) 99191-5685

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