A ARTE DE SER FELIZ

Amigos e pacientes vivem perguntam sobre a tal felicidade, sobre “o que ela é”, e o que fazer para se tornar uma pessoa mais feliz e manter a longevidade de um estado de felicidade, ela que normalmente é feita de frágeis instantes, de momentos efêmeros e passageiros.

Epicuro, um filósofo grego que viveu entre os anos 341 e 270 a.C., dizia que as pessoas são felizes quando elas têm três coisas: muitos amigos e uma boa convivência com eles; quando são livres e espontâneos na convivência com estes amigos, e, finalmente; quando meditamos, agradecemos e oramos. Nos dias atuais, está cada vez mais claro que para sermos felizes, não precisamos de “ter” muita coisa, mas precisamos “gostar” daquilo que temos e isto fica evidente quando agradecemos.

Quando amamos aquilo que temos não precisamos de mais nada, até porque escolhemos com nossa alma e de todo coração aquilo os nossos tesouros e somos “leais” e “fiéis” àquilo que temos. O amor é uma escolha. Gostar daquilo que temos nos tranquiliza, aniquila a nossa ambição, mesmo porque o pouco que temos nos basta, é o suficiente e isto é válido para os bens materiais e para as pessoas que amamos.

Para aumentar a felicidade e preservar o gozo na companhia daqueles que amamos, o que tenho recomendado e tem funcionado maravilhosamente bem, é a gratidão, o agradecimento das pessoas que vivem conosco, por exemplo, a um cônjuge ou a um amigo, por nos tolerar e pelo bem que nos tem feito.

Àqueles mais adultos, recomendamos as “orações de agradecimento” diário à Deus, ao Universo ou à Natureza (ao que for), por tudo o que temos e somos, por tudo que acontece de bom e até de ruim, mas principalmente para que sejamos gratos, expressando nossa gratidão sincera às pessoas que amamos e com as quais convivemos, por exemplo, dizendo talvez antes de dormir: “Muito obrigado por tudo o que você tem sido para mim”. Obrigado!

Isto é profundamente terapêutico e restaurador. Você não imagina o bem que isto poderia fazer aos seus relacionamentos! O que significa receber a aprovação, o agradecimento honesto e sincero, que é o reconhecimento do amor das nossas vidas ou da cortesia de uma pessoa muito querida, que está dedicando a vida dela à nós, convivendo e nossa companhia, por nos ter escolhido, ela que poderia talvez estar como outra pessoa que a tratasse melhor do que nós, mas que por alguma razão nos escolheu. Simples assim!

Vamos desenvolvendo nossa humanidade, as nossas qualidades, a nossa sensibilidade, e isto vai nos presenteando com um estado de equilíbrio e satisfação. Um dia eu me dei conta de uma coisa tão importante e que mudaria completamente toda a minha vida, a minha forma de pensar e de ser. São aquelas coisas que a gente pensa e repensa, e de repente, cai a ficha e então a gente percebe que os problemas existem e sempre existirão.

E o que significa isto? Significa que a felicidade não depende da solução de todos os problemas do mundo, nem do conforto e da riqueza. Às vezes dizemos “quando isto for resolvido, quando aquela pessoa mudar e não foi mais do jeito que ela é, eu finalmente serei feliz”. Ela não mudará e nem é desejável que isto ocorre, mas eu serei feliz assim mesmo, independentemente daquilo que a pessoa que eu amo seja, e apesar da minha família ser assim ou assado e das poucas coisas que tenho.

Todas as pessoas são perfeitas sendo exatamente do jeito que elas são e se tiver que se transformarem “para” que você seja feliz, sinto muito, mas nem você e nem elas serão felizes, e você, com isto, mostraria apenas a sua imaturidade e a sua incapacidade de amar.

Temos construído a nossa felicidade em três coisas falsas, que são ilusões de felicidade: nos bens materiais, acreditando que tendo tudo o que queremos seremos felizes. Quando recebemos algo material ficamos felizes? Sim ficamos. Porém, se continuarmos recebendo aquela mesma coisa continuaremos felizes? Não. Claro que não! Se recebemos algo que nos deixam felizes, uma casa, um carro, etc. é óbvio que ficaremos felizes.

Mas se ficarmos sempre com aquele carro novo eu vou conseguir manter o meu estado de felicidade? Não. É evidente que não.

Mais cedo ou mais tarde, e muito mais cedo do que mais tarde, como disse, o Lama Michel Rimpoche, “eu vou acabar ficando insatisfeito e sofrendo por outras razões e por outras coisas”. A segunda causa da felicidade são os prazeres sensoriais, ou seja, eu posso ter algo que aprecio, por exemplo, se gosto de água, eu tomo água e mato a sede, e isto traz uma agradável sensação de prazer. Então, eu fico feliz, mas se continuasse tomando água isto manteria o meu estado de felicidade? Não. Sem dúvida que não. Ao contrário, num dado momento isto se tornaria sofrimento e, portanto, não conseguiria manter a minha felicidade.

Uma terceira coisa que poderia me fazer feliz é o reconhecimento pessoal por parte das pessoas, quando fazem um elogio e a gente gosta. Um exemplo disto, é quando se diz; “alguém disse coisas muito boas a seu respeito”!

Ouvimos e ficamos felizes, porque massageia o ego e nos dá prazer. Na maioria das vezes, achamos que a felicidade depende dessas três coisas; dos bens materiais, dos prazeres e do reconhecimento pessoal e dentre eles o mais sutil, é a busca do reconhecimento da nossa imagem, que é o mais difícil de se eliminar e é o nosso vício mais forte.

Muitos até conseguem se desapegar das coisas materiais, da busca do prazer, comem qualquer coisa, suportam o frio e o calor, mas o narcisismo e o cuidado exagerado com imagem é o mais difícil e o que gera o maior sofrimento. Certo dia me dei conta de que um dos meus objetivos maiores era o de ser feliz, mas os problemas existem e existirão para sempre e mesmo assim eu ainda poderei ser feliz. Posso viver em paz e harmonia comigo e com os outros à minha volta, onde quer que eu esteja, seja com quem for e em qualquer situação em que me encontre.

Se a minha felicidade, o meu equilíbrio e a minha paz dependessem do que acontece à minha volta, eu não teria possibilidade alguma de ser feliz porque todas as coisas são como elas são e não precisam ser do meu jeito. Se dependesse do “ter” e dos prazeres sensoriais e eu acreditasse que a felicidade vem dos prazeres, tudo estaria perdido, porque nada nunca é bastante, porque quanto mais tenho, mais quero, mais preciso e assim por diante, vivemos correndo atrás deste pássaro chamado felicidade.

Por outro lado, quanto mais forte é o prazer, maior é o sofrimento quando tudo se acaba, e então, seguimos criando ciclos viciosos que geram o sofrimento e a infelicidade. Onde, e como é encontrada? Eliminando os nossos tantos defeitos e desenvolvendo a gratidão, a compaixão, cultivando as nossas qualidades, pedindo menos e agradecendo mais, e somente assim encontraremos um estado de equilíbrio e satisfação.

É importante deixarmos claro que não há nada de errado no prazer sensorial, na aquisição de bens materiais, no cuidado com a imagem e na busca do reconhecimento pessoal. O problema é supor que a nossa felicidade depende disto! O problema é criarmos uma dependência que nos levaria a vivermos “para” isto e fazer disto o sentido das nossas vidas.

Por fim, a satisfação pelo fato de direcionarmos as nossas próprias mentes com foco e autocontrole, é muito maior do que obtemos, por exemplo, com o objeto dos nossos desejos.

Quando sentimos o controle sobre nós mesmos, isto nos leva a um estado de satisfação e maturidade, então o processo para sairmos desta sensação de descontrole é o autoconhecimento que é o que mais necessitamos.

Precisamos nos amarmos mais. E o que é amar-se a si mesmo? É reconhecermos aquilo que nos faz bem e cultivá-lo. É reconhecermos aquilo que faz mal e abandoná-lo e praticar isto no dia a dia, usando menos a cabeça e mais o coração.

Quando pedimos menos e agradecemos mais, o Universo é respeitado e parece reconhecer as nossas reverências e o quanto somos gratos. Com isto dizemos o quanto “somos felizes e agradecidos” por todas a coisas, boas e não boas, porque tudo o que nos acontece é sempre para o bem, porque às vezes o Universo nos ajuda muito mais evitando nos dar aquilo que pedimos, porque agradecendo por tudo aquilo que somos e temos é a razão maior da nossa alegria e de toda felicidade.

José Carlos Vitor Gomes, Psic.
019 99191-5685

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