A arte de equivocar-se na vida

O exagero das expectativas

Desiludir-se é uma arte ainda a ser aprendida e os piores desiludidos são sempre aqueles que esperam demais e têm muitas expectativas sobre os fatos e as pessoas. Bem feito!

Os pacientes, os amigos e as pessoas de forma geral, às vezes se perguntam por que as coisas dão certo ou também o contrário, por que elas dão errado. Vivemos num mundo mágico onde cada vez mais os sábios e os cientistas, afirmam que precisamos “sonhar”, sonhar muito e lutarmos desesperadamente para realizar o que é sonhado, porque assim conseguiremos o prazer e a felicidade.

O auge desta crença aconteceu há alguns anos e foi ilustrado em documentários excessivamente otimistas como o “The Secret”, o segredo, que embarcavam num exagerado otimismo, afirmando que tudo o que sonhamos, pode ser realizado, o que nem sempre é verdadeiro e nem real, porque o sonho em exagero pode também ser delírios e alucinações, sobretudo quando se busca diretamente por coisas materiais, pelo prazer, pelo dinheiro e a felicidade.

Uma coisa é o sonhar natural, outra coisa é sonhar exageradamente alto como estratégia para se chegar às alturas, apostando alto para atingir o máximo possível, e isto é querer enganar o Universo!

Ter sucesso é muito mais do que ter dinheiro. Uma pessoa só pode ser feliz e bem-sucedida se todos os que estão à sua volta compartilharem deste sucesso e desta felicidade, porque a felicidade é como as festas e as piadas, onde as risadas e a alegria só têm sentido quando todos riem juntos e compartilham o pão do humor e da alegria coletivamente.

Ambrose Bierce (1842-1914), um humorista americano, dizia que “se queremos que os nossos sonhos se tornem realidade, precisamos acordar” e quando a gente se desperta, às vezes, nos damos conta de que tudo era apenas um sonho vazio. Tudo vai depender dos caminhos trilhados, das nossas intenções e do sentido espiritual daquilo que se busca.

Expectativas como coisas inventadas pelo cérebro

Sabemos que a mente humana é uma fábrica de sonhos, de significados e expectativas. As expectativas são criadas por nossas cabeças para nos afastarem dos impulsos de vida e nos aproximarem das pulsões de morte. Até aí tudo bem. Elas são importantes, mas em exagero, as expectativas são recursos “para” que as coisas que buscamos não sejam encontradas.

Em seu livro “Supersentido”, o pesquisador Bruce Hood da Universidade de Oxford, relata seus estudos sobre “por quê precisamos tanto acreditar em coisas inacreditáveis”, e por alguma razão, temos esta necessidade porque estas crenças geram “esperanças” que atribuem sentido às nossas vidas e enchem a existência de um conforto real ou irreal, antecipados por acreditarmos ainda que falsamente que tudo o que sonhamos será sempre realizado, o que não é de fato nem verdadeiro e nem real.

Por outro lado, e aprofundando um pouco mais sobre a questão, o psicólogo Viktor Frankl (1905-1997), entende que a “hiper-intenção” e a “hiper-atenção, a intenção e a vontade exageradas de conseguir as “coisas” que buscamos, são paradoxalmente os recursos que usamos para nos afastarmos delas e a excessiva atenção voltada para nós mesmos, impedem o acontecimento daquilo que talvez até precisasse acontecer por si mesmo, mas o impedimos.

As nossas almas, de alguma forma sabem que não podemos e não devemos ter tudo aquilo que sonhamos e que isto talvez nem nos fizesse tão bem quanto o imaginamos.

Nos relacionamentos não é diferente, pois como sabemos, “o que destrói a intimidade é precisamente o excesso de intimidade”. Acabei retomando esta questão no meu livro “O sentido com terapia” dada a importância do tema, alertando para o fato de que o prazer, a felicidade, o sono e a sexualidade não podem ser buscados diretamente, exemplificando que, em um estado de insônia, é a insistência e a raiva da pessoa por saber que passará mais uma noite sem dormir, que elimina o relaxamento necessário para o sono, sem o qual não conseguirá dormir, nem fazer amor, e muito menos ter prazer ou ser feliz.

Não seria exagero dizer que é a luta pelo sono que faz com que as pessoas não consigam dormir, que a luta pelo prazer acaba com a possibilidade do prazer, que a luta pela felicidade é o que destrói as nossas possibilidades de sermos felizes, e que a luta pela normalidade, nos adoece, e nos transformam em meros “normopatas”.

A felicidade, o amor, a alegria, o sexo, a salvação ou o nirvana, são dessas coisas que só conseguimos “com o outro” e jamais sozinhos quando isto for uma escolha. São coisas que nascem na sagrada dimensão do “entre”, e o “entre” é o vazio do encontro e das relações, algo que pertence à magia da intimidade dos relacionamentos e se compartilha por si mesmo, espontaneamente, sem a necessidade da nossa mediação e nem de esforço e nem da nossa vontade.

A força do “entre”, é algo próprio do humano. Do milagroso vazio que, num dado momento, se instalou entre nós para que algum sentido dali fluísse.

O relacionamento é algo que flui e não pertence a nenhum dos dois, mas que transborda naturalmente do encontro. E o que há “Entre” nós, pertence à mais perfeita exclusividade da nossa relação, daquilo que Martin Buber (1878-1965) reconhecia como um espaço sagrado que nasce na beleza crua da plenitude do encontro num relacionamento “Eu – Tu” e que está tão bem descrito em seu livro “Eu – Tu” (Ich und Du), concluído em Jerusalém em 1957.

Em relação à sexualidade, na falta de prazer e na impotência, o homem fica preocupado apenas com a sua ereção e assim ele acaba ficando só e “fora da relação com a parceira” e acaba perdendo a espontaneidade. Preocupado com o seu próprio genital - que é quase nada nos relacionamentos, - ele acaba se esquecendo do essencial que é a sua parceira, ambos ficam “sozinhos” e o que seria um estímulo para que eles se encontrassem passa a não existir.

Sua preocupação com o seu próprio funcionamento íntimo, faz com que ele se feche em seu egoísmo e ela, ficando por vezes esquecida, simplesmente deixa de existir no campo e “sem a mulher” que seria a razão de ser para todo prazer e excitação, se extingue e não existirão mais.

Também aqui, não seria exagero afirmar que “o que acaba como o prazer é a busca direta, fria e exclusiva pelo prazer” e “o que acaba com a excitação e o orgasmo, é busca mental exclusiva pelo orgasmo e assim por diante...

Metas e intenções não servem para nada

No campo do prazer, do sexo, da felicidade e do sono, as metas não servem para quase nada. Elas são pensadas e, portanto, são mentais ou virtuais. São frutos das nossas intenções, da nossa imaginação, das nossas buscas diretas que atuam fazendo com que tudo o que é buscado, sejam empurrados para longe de nós.

Da mesma forma, as intenções, os propósitos criados pelo cérebro e por nossas cabeças, somente nos levam para longe do que buscamos e nos camuflem na fumaça dos “sobreísmos”  - outro conceito de Martin Buber - quando pensamos “sobre as coisas” e com o pensamento, nos afastamos da vivência daquilo que só poderia existir se fosse vivenciado.

Lutar contra as nossas dificuldades sexuais, a infelicidade, o desprazer e a insônia etc., segundo Fritz Pearls (1893-1970), o criador da Gestalt-terapia, Jacob Levy-Moreno (1892-1974), o criador do Psicodrama, Martin Buber (1878-1965), criador existencialismo espiritual e de Viktor Frankl (1905-1997) criador da Terceira Escola Vienense de Psicoterapia, do budismo e de certas concepções orientais sobre a vida, poderia esconder uma “intenção” oculta “para” não conseguirmos o que buscamos diretamente e tão ansiosamente.

E para deixar alguma orientação; estas coisas precisam ser basicamente esquecidas e sequer devem ser buscadas, e assim, na fluência natural do dia a dia, elas podem acontecer quando existe um clima afetivo sutil, quando existe um vínculo favorável, quando o encontro é real e de fato humano.

Busca direta pelo prazer

O prazer somente pode ser conseguido quando “não é buscado diretamente”. Devido ao fenômeno da “hiper-intenção”, ele só pode ser encontrado em estado de relaxamento, com espontaneidade e humor.

Quando alguém não se preocupa com o sono, pode acabar dormindo sem perceber que dormiu. Quando este sequer se preocupa com a felicidade, mas age para que o outro seja mais feliz, então ele passa a ser feliz e sequer percebe a sua felicidade. Da mesma forma com a sexualidade, quando você se relaxa e cuida para que o outro relaxe e tenha prazer, o prazer do outro fará com que você colha os frutos deste mesmo prazer.

Alguém se excita, liberando feronômios e os odores sexuais químicos atingem a hipófase do outro, liberando o fluxo sanguíneo que atua sobre o masculino, acionando a sexualidade mútua e nasce espontaneamente a excitação de ambos.

Tudo isto pode ocorrer sem quaisquer sentimentos de amor, mas paradoxalmente, também o amor pode acontecer sem que exista nenhuma sexualidade. É, todavia, no encontro amoroso que acontece a melhor intimidade profana ou sagrada, e nela existe a maior aproximação possível ao projeto da Criação e não é algo nem de perto semelhante ao que se passa como os animais.

Angústia da expectativa

Ansiedade antecipatória ou angústia da expectativa é um medo exasperado de que algo aconteça além do nosso controle, por exemplo, de que aconteça um ataque de pânico quando eu estiver sozinho no mundo, então, ficamos com medo de uma crise em plena rua e já não queremos mais sair de casa, temendo que a qualquer momento a crise possa acontecer.

Assim, o medo funciona como gatilho daquilo que a pessoa teme. O medo de um ataque de pânico é a causa do ataque de pânico que tanto se teme. Este medo é causado pela expectativa, ou pela “angústia da expectativa”, cujo mecanismo que é causado pela ansiedade. O sofrimento futuro, é antecipado e faz com que aquele comece a sofrer antes do ataque em si, e isto já é o ataque que tanto se teme.

Usamos a metáfora do ataque de pânico, mas isto é o que ocorre em todas as situações onde se teme a impotência, a dor, a falta de desejo feminino e a impotência masculina, nas situações de distúrbios do sono, do desejo e do medo de ser infeliz, onde quer que o medo ataque e destrua a espontaneidade e antecipe sofrimentos futuros.

A busca direta pelo dinheiro

A busca direta pelo dinheiro é também estranha porque os fins justificam os meios e tantos conseguem dinheiro por meios ilícitos, em bolsas de valores, nos cassinos e loterias, mas, de onde quer que o dinheiro venha sem trabalho ele não tem valor.

É comum percebermos que as pessoas que ganham dinheiro do nada, como acontece com os vencedores do Big Brother Brasil fiquem pobres ou tenham fins trágicos. Adivinhem por que! Porque não trabalharam para consegui-lo, e, portanto, não se sentem dignos merecedores daquele dinheiro e se sentem impedidos de aproveitá-lo.

O dinheiro que faz bem e pode trazer alegria, prazer, realização e felicidade, é aquele que vem do trabalho honesto, quando se faz bem alguma coisa para ajudar o mundo. Então, ele “não é buscado diretamente”, mas surge em consequência de um trabalho dedicado e assim ele tem o poder de construir a felicidade de quem o possui e se sente seu digno merecedor.

Busca direta pela felicidade

Na busca “direta” pela felicidade, por exemplo, quando alguém deseja “ser feliz” sem fazer nada para merecê-lo, nos relacionamentos quando se busca a segurança dos príncipes encantados, e se prende nas gaiolas de ouro, quando o interessado não equilibra o dar e o receber pelo merecimento do que recebe.

A felicidade indireta acontece quando, por exemplo, nasce um filho, e o seu nascimento nos enche de felicidade, e esta felicidade é tão grande que contagia os que estão à nossa volta. Neste caso, a felicidade emerge como uma benção que flui da oportunidade de termos um filho.

No amor vazio e puramente romântico, quando se deseja estar com outro para aliviar inseguranças, pela satisfação de desejos íntimos, por status ou por carências, este é o amor que nos adoece e nos impede de termos a mais autentica felicidade.

Segundo Joan Garriga, constelador mexicano, o amor que nos faz bem, é aquele onde “um mais um é mais do que dois”, quando ficamos com o outro por ser uma escolha e pela vontade espontânea da convivência por si só, e sem recebermos nada em troca. Este dedicado é aquele onde ninguém consegue ficar solitário, mesmo quando estão distantes, é o amor que transcende a própria vida, quando, por exemplo, um deles precisa ir embora.

Espontaneidade e a busca indireta

Jacob Levy-Moreno e Martin Buber chegaram às mesmas conclusões por vias diferentes e compreenderam que a “espontaneidade” é a força para realização de uma vida feliz, e onde não existe espontaneidade, não existe saúde mental, espiritual e nem amorosa.

A espontaneidade somente existe num estado de “não mente”, pois a mente e a inteligência humana são coisas artificiais, não são naturais, e trabalham contra nós quando o que se busca é o sono, o prazer e a felicidade. A cabeça nos ajuda nas coisas lógicas, nas criações científicas, nas invenções e na ciência, mas ela é a nossa pior inimiga quando queremos usá-la para obtenção de uma vida feliz, para controlar o incontrolável e a natureza.

Como ter espontaneidade e sermos felizes?

A espontaneidade até por definição precisa ser livre, não se entrega aos nossos controles, é a criança saudável das nossas almas e um reflexo da presença ignorada de Deus em nós. A espontaneidade surge quando a vida tem sentido, se fazemos o que desejamos, da forma como desejamos e onde for possível desde que seja algo humano e ético, sem o controle intelectual, sem as intenções, sem a mente e com a alma livre.

Nas meditações budistas, indianas e no yoga, com a respiração consciente, a espontaneidade surge para ser a causa e a consequência de todo o processo de fluência interior e assim a leveza e a felicidade são mais facilmente alcançadas. Num estado de relaxamento profundo, a espontaneidade vem por si só, e, às vezes nos cura oculta e inconscientemente de quase todos os nossos males.

Tanto Viktor Frankl como Henry Bergson (1859-1941), especialmente este último que estudou profundamente o intuicionismo, nos deixou em seu livro “O riso”, reflexões sobre o humor como força de relaxamento, sobre a necessidade do riso, e de um olhar cômico até para nós mesmos, quando rimos dos nossos próprios absurdos, quando descobrimos que somos “gagás” e do quanto é bom olhar para os nossos próprios defeitos com um olhar mais distanciado cheio de gratidão e de perdão, desapegados da nossa imagem e de nós mesmos.

A distração e o lazer nos aproximam da nossa criança interior e essencial, e esta é a mais pura espontaneidade, aquela que nasce quando damos boas risadas de nós mesmos, quando somos pura gratidão e amamos essencialmente, primeiramente à nós mesmos e depois os outros, mesmo porque o amor somente é possível quando ele começa por nós mesmos.

Conclusão

Para concluir, quando a expectativa é alta demais em relação às situações e as pessoas idealizadas ou preciosas demais, corremos o risco de superestimar tanto os acontecimentos, como os fatos e as pessoas. Esperamos demais. Queremos muito. Idealizamos as pessoas e então nos decepcionamos, e elas, às vezes, nem sabem das nossas expectativas sobre elas, portanto, não são culpadas por nada. A responsabilidade por nossas expectativas é nossa, e nos decepcionarmos é um sinal de que esperamos das pessoas muito mais do que elas poderiam nos dar.

Assim, o ideal para a saúde e a felicidade, é a diminuição das expectativas e do apego para evitarmos as decepções, as frustrações e as desilusões.

Devemos evitarmos buscar o prazer e a felicidade fora de nós mesmos, pois cada ser é capaz de ser feliz sem depender de nada e de ninguém, e segundo um certo mestre; “a gente de desilude porque se ilude” e às vezes “somos desenganados, porque nos deixamos enganar e “eu concordo com isto”.

José Carlos Vitor Gomes, Psic.
(19) 99191-5685

Ainda não existe comentários

Deixe uma resposta