A ARTE DE AMAR

Por José Carlos Vitor Gomes, Psic.

Quase ouço nos ventos desérticos a Esfinge que diz “decifra-me ou te devoro” e retorno o meu olhar para mim mesmo, eu que cada vez mais sei menos sobre o que é amar e o que é o amor, este fantasma que feito um espírito, se faz desertor e se afasta de todas as explicações. Se o que se leva da vida é a vida que a gente leva, o que recebemos do amor, é o amor que a gente dá, numa espécie de magia, onde, quanto mais se ama, mais amor se tem.

Mas o amor não aceita definições e nem explicações.

O verbo amar vem do latim "amo". É uma contração de "a me o": que significa "sair de si para se doar ao próximo", em consonância com a sugestão de Jesus para “amarmos ao próximo como a nós mesmo”, uma ação que implica em se colocar “no lugar do outro”, na pele do outro, e de certa forma, “identificar-se” com o outro significa “tornar-se o outro ou idêntico à ele” e assim me faço incapaz de fazer mal a quem quer que seja, porque fazer mal a alguém é tão agressivo quanto suicidar-se ou atirar nos próprios pés.

Noto o olhar surpreso dos pensadores, o seu espanto todas as vezes que tentam explicar o que é o amor e este se escapa, e fugindo se deserta como os pássaros e as borboletas, e quanto mais corremos atrás deles, mais eles fogem. Assim, corrermos atrás dos pássaros é uma excelente forma de expulsá-los e “não tê-los”, de espantá-los para longe de nós, porque o amor é essa ave misteriosa e arisca à todas as explicações e se esconde dos que lutam por ele.

Perco o meu tempo pensando, sem me dar conta de que o amor não tolera mais do que ser contemplado de longe, admirado à distância por quem se encanta com a beleza dos pássaros, com as nuvens, com as borboletas, com o céu e as noites estreladas. O amor é aquilo que eu não posso “ter”, em que não devo “tocar”, pois a sua existência se desfaz ao menor esboço de ser tocada ou buscada, e os que ousam conhecê-lo, são punidos como na maldição da Medusa, onde aqueles que ousam “olhá-lo” se tornam estatuas de sal.

O amor não suporta mais do que ser contemplado, olhado de um ponto distante sem ser tocado sequer em pensamento, porque o amor parece avesso a todas às reflexões, porque o amor é esquivo e fugitivo de todos os pensamentos, e na hora que penso sobre ele, imediatamente ele se desfaz e se implode pela força das nossas imagens sobre ele, pelas palavras e os passos que ouso dar em sua direção e assim como um arco íris, ele se afasta de quem se aproxima.

E se o amor é assim tão arisco, o que seria então a intrigante arte de amar?

Os amantes começam a perder o seu amor quando se põem a pensar sobre ele. O amor somente é real quando sequer nos damos conta de que ele existe. Dizem que o amor não existe para ser pensado, mas para ser vivido, vivenciado de forma distraída e leve, e isto acontece por si só, além dos nossos pensamentos, além da consciência e muitas vezes, além da própria vida.

Se as trocas materiais se equilibram entre “o dar e o receber” e se quando alguém recebe um presente, passa a sofrer de uma estranha carência de retribuição, no caso do amor, não existe lugar para as trocas e nem para o dar e o receber. Se alguém ousa retribuir o amor que recebe, é porque este amor talvez não exista mais, e pode ser que ele tenha se perdido na culpa e no medo das injustiças e das cobranças.

O amor não pode ser dado e nem recebido. Ele está situado num ponto superior e atua como sendo esta máquina que equilibra o dar e o receber, onde o dar e o tomar seriam, por exemplo, o chá que se oferece, e o amor é a xícara e o bule que dosam o dar e o receber.  Onde uma coisa é “o que é dado” e recebido, e outra coisa é “o que controla” o dar e o receber.

Ninguém que ame de verdade consegue dar ou receber amor, mais do que isto, o amor não suportaria o jogo do dar e o receber. O amor acontece além de todos os anseios, expectativas e intenções, além de todas as buscas, de todas as necessidades e carências, além da nossa consciência e dos nossos pensamentos e sentimentos.

O amor não é uma escolha meramente cerebral. Não é algo material que se estoca nas prateleiras da existência. Não depende do livre arbítrio porque está além dele, nas mãos do Criador de toda liberdade, do Criador de todas as coisas, de todas as iniciativas e de todo livre arbítrio. E mais do que isto, o amor é o conta-gotas que transcende a essência que se goteja, e o que é gotejado. Assim, o amor em certa medida se mescla com o Altíssimo, e outras palavras; o amor parece ser a própria Transcendência se expressando e criando, algo que a consciência humana jamais conseguiria nem de longe compreender.

O amor é uma possibilidade, uma semente, mas não é algo a ser decidido e muito menos é algo que possa emergir do livre arbítrio, em outras palavras, ninguém ama ninguém porque decidiu amar, pois o amor flui espontaneamente do encontro quando a gente menos espera, numa direção imprevisível e além de todos os nossos controles.

E para concluir eu citaria um verso da poetiza Elizabeth Barrett Brown que nos dá uma pálida noção sobre o que seria o amor em seu sentido maior, enfatizando que nós, seres que amam, devemos amar pelo amor somente, não pelo que o outro “é “, nem pelo que ele “significa”, nem pelo que o outro “tem”, porém, mais do que tudo isto, se te amo e “quando” te amo, “amo-te por aquilo em que me torno quando estou em sua presença” e isto acontece sem que ninguém tenha que fazer quase nada.

O amor vai tomando formas, rumos e sentidos exclusivos e irrepetíveis para cada um de nós seres amantes, e Elizabeth Barrett Brown assim respondeu quando lhe perguntaram sobre “como” ela amava o seu ser amado:

Como te amo?
Deixa-me contar de quantas formas eu te amo!
Eu te amo até o mais fundo, o mais amplo e ao mais alto
Que a minha alma alcança, buscando para além do visível os limites
do Ser e da Graça ideal.


Eu te amo até nas mais ínfimas necessidades de todos os dias,

Na luz do sol e à luz das velas. Eu te amo com a liberdade com que os homens lutam por Justiça.
Eu te amo com pureza, com a paixão das velhas mágoas
e com a fé da minha infância.


Eu te amo com um amor que me parecia perdido com as coisas perdidas.

Eu te amo com toda a minha força, com o sorriso e as lágrimas de uma vida inteira!
E, se Deus quiser, depois da morte

eu amarei melhor.

Mas todo esse amor, somente pode ser real enquanto for gratuito, sem medos e nem cobranças. Muitos exigem tanto dos seus amores, a ponto de levarem em si uma espécie de “medo de amar”, seja para evitar frustrar a pessoa amada ou por medo de não corresponder o amor recebido.

Por isto, o amor saudável e verdadeiro precisa ser gratuito, amando por amar e sem querer nada em troca, porque o ser amado, para continuar amante, não pode estar em dívida com o outro, pois eles não se amam por razão nenhuma e nem por coisa alguma, mas apenas pelo que se tornam quando estão na presença um do outro.

Frequentemente, a imaginação de quem ama é a única responsável pelo seu amor e quase nunca tem nada a ver com a pessoa amada. Cada um pertence apenas a si mesmo. Ninguém jamais perdeu o seu amor pelo simples fato de que não o possuía, porquanto as pessoas nunca foram e nem serão de ninguém, e para concluir; todas as pessoas do mundo hão de perder apenas e tão somente aquilo em que se agarraram.

José Carlos Vitor Gomes, Psic.
19 99191-5685

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